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2012-12-27

And nobody felt sad as long as we could postpone tomorrow with more nostalgia

É no mínimo interessante perceber como dá pra medir a vida através da literatura. Do que você escreve e do que você lê. Do que você coloca e do que você tira disso. Da ficção em geral. Percebi um relance do que era, talvez, ser adulto quando percebi que minha relação com personagens adolescentes tinha mudado. Não que haja um bloco determinado de tempo com linhas bem definidas pelas quais você passa para ser considerado adulto; é só aquela sensação, agora já não mais tão estranha, de que há uma parte da vida à qual você não pertence mais. E que a vida já é grande o bastante para você conseguir olhar pra trás e ver as pessoas que você foi antes de chegar até aqui.

Esse talvez seja o primeiro momento da minha vida em que consigo enxergar essas coisas mais claramente. Talvez esse tenha sido o meu 2012, afinal; um ano de lucidez, e por isso a minha bio aí do lado agora faz tanto sentido. As coisas não melhoraram, e não digo isso pra fazer parecer que nada presta nessa vida, mas sim porque o que importa é que o modo como lido com elas mudou. Hoje eu posso dizer que conheço muito mais de mim do que conhecia antes; é engraçado perceber como também precisamos nos conhecer, assim como conhecemos outras pessoas. Nada vem sozinho. 

Outro dia um amigo me falou uma coisa que ficou na minha cabeça. Estávamos falando sobre um livro e ele disse que tudo que existia na vida dos personagens era passado. Eles olhavam pra trás e viam o passado. Olhavam pra frente e o passado continuava lá. Algo assim. E eu fiquei pensando: então é isso. Durante muito e muito tempo eu odiei o passado, mesmo quando ele fosse bom, porque odiava a pessoa que eu era no momento. E justamente por não suportar, eu não conseguia ver outra coisa. Eu olhava pra trás e tinha passado; olhava pra frente e ele continuava lá. Hoje eu consigo ver essas pessoas que eu odiava tanto e perceber que não sou mais nenhuma delas; embora tenha sido. O que eu sou agora, talvez seja melhor ou pior, mas ainda não tenho como saber. O que eu sei é que posso lidar com isso, e isso é tudo que importa. 

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, (...) 

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. 
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

2012-12-13

Uma verdade incoveniente

Eu passei muito tempo - provavelmente os últimos cinco ou seis anos - apressando algumas coisas e retardando outras na vida. O motivo é que eu tinha certeza que não estaria vivx a essa altura. Eu sei, soa meio ridículo falando assim, mas eu realmente tive essa certeza que me apavorava e não me deixava dormir por um bom tempo. É como viver com um prazo de validade - meio vago, mas ainda assim um prazo. Nunca pensei no que iria fazer a essa altura da vida, porque achei que não estaria mais aqui.

Só que, guess what, eu não morri. Ainda.

Isso me deixou numa posição meio esquisita. Veja bem, ninguém sabe se vai morrer amanhã ou daqui a cinquenta anos - a diferença é que antes eu tinha absoluta certeza de que a possibilidade dos cinquenta anos a mais não existia pra mim. Agora que existe como uma possibilidade, não sei o que fazer com ela. Não sei lidar com a  perspectiva de viver, how sad is that?

Não é que eu tenha me ~curado~ por completo, mas é como quando te dizem que o mundo vai acabar no ano tal e ele não acaba; você continua com medo que ele acabe, mas agora que passou a data que te deram, não está mais tão encanado com isso (supondo, a princípio, que você seja uma pessoa que se preocupa com o fim do mundo -q).

Mas essa não é a pior parte. A pior parte é que tudo aquilo para o qual eu caguei, tudo aquilo que reprimi ou simplesmente adiei pelo fato de que em breve não mais precisaria me preocupar (porque já teria virado um punhado de cinzas. não me enterrem pfvr) estourou com a intensidade mil sóis. Todas essas coisas resolveram fazer um motim e dançar por aí com plaquinhas de "quis ignorar? pois agora te fode aí".

Daora a vida.


2012-11-12

mimimi acadêmico - parte n


Quando estou sem nada pra fazer - ou, melhor dizendo, quando estou procrastinando coisas que deveria estar fazendo - gosto de ficar olhando grades curriculares de cursos que eu faria. É divertido. Só que quando estou assim, no final do semestre, eu tenho que ir olhar a grade curricular do meu curso mesmo, pra ver se não desisto. Parece uma coisa pequena demais pra se fazer, e até é, mas ver os nomes das cadeiras e perceber que eu realmente tenho vontade de cursar boa parte delas é uma das poucas coisas que ainda me dão vontade de continuar. É assim praticamente todo semestre. E aí o próximo começa e as coisas vão melhorando, sinto tudo renovado, até chegar no fim de novo. Então vou fazer um mimimi que provavelmente já foi repetido até a exaustão aqui, mas que vou fazer de novo e foda-se a sociedade.

Quando alguém me pergunta porque eu faço engenharia, uma das minhas respostas clássicas - e mais verdadeiras - é que estou fazendo porque fiz Informática antes. Só por isso mesmo. Só pra continuar o que eu já fazia. É um motivo meio bobo, mas guerras já foram iniciadas por coisas menores (eu acho). Acho uma paunocuzice sem tamanho ficar endeusando curso, mas engenharia de fato é um negocinho difícil. Quem endeusa curso gosta de dar a entender que só pessoas inenarravelmente inteligentes e esforçadas conseguem se dar bem e chegar até o final; mas o fato é que pessoas inenarravelmente inteligentes e/ou esforçadas realmente conseguem se dar bem, mas não se iluda, pequeno gafanhoto ávido por ares de superioridade. Sempre vai existir alguma pessoa, em qualquer curso, que está ali só por estar, que não vai ser eventualmente chutada pela ~seleção natural~ dos cursos difíceis (seja por sorte ou não) e que, quem sabe, vai até terminar o curso. Eu espero estar entre essas pessoas. Não dou a mínima pra ser a melhor pessoa na minha área e estou de boa com minhas notas, obrigado (elas não são ruins, seriously. bem, não todas).

Semana retrasada peguei um livro de equações diferenciais, um de algoritmos e um de arquitetura de computadores. O objetivo era estudar loucamente e, obviamente, passar. Fiz isso? Claro que não. O que essas três matérias têm em comum é que são as primeiras aulas da tarde - ou seja, eu sempre passo a aula toda dormindo profundamente e rabiscando no caderno o que deveriam ser anotações, mas que parecem mais aqueles testes psicológicos em que você tem que deixar o subconsciente ~escrever. Eu pego os livros, mas sei que só vou realmente ler ou resolver alguma coisa na véspera. Não sei porque ainda me surpreendo com isso. Não sei nem porque ainda acho isso digno de nota. Acho que preciso também me convencer de que, não importando qual faculdade eu fizesse, esse seria meu método de estudo. Bah.


2012-10-23

You know, they didn't even give us a chance


Christ, you know it ain't easy
You know how hard it can be
The way things are going
They're gonna crucify me



Eu estava assistindo Lennon Naked e pensando nos meus ídolos e até mesmo nos personagens com quem me identifico. Cheguei à conclusão de que é um bando de gente que se fodeu muito na vida (quem nunca, não é mesmo), mas também cheguei à outra conclusão interessante: mas que bando de gente escrota são essas pessoas que eu gosto tanto.

"Say, what're you doing in bed?"
I said, "we're only trying to get us some peace"
Vou citar John Lennon, Sirius Black, James Potter e Brian Kinney. Abstraiam o fato de que os três últimos são personagens fictícios (e dois de Harry Potter) porque, né, pra que se ater a esses detalhes? Biografias, filmes, livros e, no caso do Brian, uma série, me mostram que esses caras eram insuportáveis. Veja bem, eles não apenas eram arrogantes, ou tinham opiniões controversas, ou eram grossos; além disso tudo, eles fizeram coisas erradas, tipo ser escroto com a primeira esposa e com o filho (oi John), jogar os coleguinhas para lobisomens (oi Sirius), ser um bully (oi James) ou simplesmente ser escroto, porque o Brian meio que extrapola as definições de paunocuzice.

Meu coração pensa nessas coisas? Olha, até pensa. Mas eu como a biografia do John com farofa e choro quando lembro que ele morreu (sou dessas ok, lide com isso). Vejo o Aaron Johnson e o Christopher Eccleston reproduzindo o timbre da voz dele e o sotaque e derreto. Você não quer me ver assistindo meus bons dvds dos Beatles, trust me. Você não quer me ver assistindo  as entrevistas do John, porque olha. 

Sirius é outro com o qual atingi um nível assustador de identificação, em parte pelo que eu li e em parte pelo que imaginei em cima disso e transformei em headcanon. Com o James o sentimento é mais de nostalgia, de pensar que ele ainda poderia ter feito muita coisa, e não pôde.

Eu poderia dizer que gosto do Brian porque ele é bonito, porque ele derrete corações e incendeia cuecas, e seria verdade também (me deixa), mas o fato é que ele é o mais próximo que eu já vi um personagem chegar da escrotice autêntica; aquela que é apenas porque é, sabe? Ainda escrevo uma tese sobre o Brian, tô dizendo. Na verdade, um dos mais fortes motivos pra eu ter começado a reassistir Queer as Folk foi justamente pra poder fazer isso.

Não é que eu feche os olhos para as coisas ruins e finja que todo mundo é perfeito - eles não são. Talvez seja justamente por isso que eu goste tanto dessas pessoas. De algum modo elas me dizem que ser humano é tão maior que transcende aquilo que pensamos que nos faz gostar ou desgostar instantaneamente uns dos outros - e olha que alguns desses caras nem existem. 

Eu não sou uma pessoa fácil de se conviver; essa é uma característica que não dá pra notar (muito) na internet, mas às vezes nem eu me aguento. Fico imaginando como as pessoas que convivem comigo 24/7 conseguem essa proeza. Quando consigo perceber o quão intragável estou sendo, penso que isso meio que anula tudo de bom que possa fazer. Quantas pessoas ainda conseguem te amar quando são continuamente expostas ao seu pior, eu me pergunto. Acho que é isso que eu vejo nas pessoas, digamos, duvidosas com quem eu me identifico. 

Eu vejo uma chance.

2012-10-08

Billy Elliot e a porta do armário


Depois de ter feito uma prova horrível simplesmente por não ter estudado a tempo, outra que foi boa, mas poderia ter sido melhor se eu não tivesse esquecido de fazer a primeira questão (sério, quem simplesmente NÃO VÊ a primeira questão de uma prova?), ter câimbra nas duas pernas no meio da natação, descobrir que vou voltar a ter aulas com a professora maluca que tentou me reprovar injustamente no técnico (eu já contei essa história aqui?) e estar atolada de trabalho pra fazer, no sábado passado eu só queria fechar a semana confortavelmente sentada assistindo Billy Elliot e me entupindo de chocolate.

(Billy Elliot, pra quem não sabe, é um filme sobre um menino que quer fazer balé, mas o pai não quer que ele faça porque isso é ~coisa de mulher~ etc etc)

Eu estava indo muito bem nesse meu objetivo, até minha mãe passar por ali e me ver morrendo de chorar. Ela então pergunta o que estava acontecendo no filme, e eu expliquei que [spoiler] o pai e o irmão do Billy estavam chorando porque o pai estava furando a greve dos mineiros pra juntar dinheiro pra viagem até o lugar onde vai haver uma audição pra uma escola de balé [/spoiler]. E então ela pergunta se o pai do Billy aceita que ele dance balé, se ele não acha que o menino é gay e etc. Eu, sem vontade nenhuma de começar esse tipo de conversa, pausei o filme, respirei e disse que dançar balé não significa necessariamente ser gay; e que, se ele fosse, também não haveria problema nenhum.

É claro que a coisa não terminou aí. Jamais lembrarei de todos os detalhes da conversa (que se estendeu durante um bom tempo, com o filme eternamente pausado), mas sei que ela foi passando pelos temas mais variados, desde piercings até traição (?). E, no final, aconteceu uma coisa curiosa. Quando voltou-se ao assunto da homossexualidade (sei lá como, depois dessa volta toda), minha mãe repetiu algumas vezes, com a maior cara de minha filha eu sei que você é sapatão, que se tivesse um filho gay não ia desprezar, mas também não ia gostar nunca. 

Eu só queria mesmo ver o filme, chorar saudavelmente pela tristeza alheia e comer chocolate, mas não tá fácil pra ninguém. Já em pleno desespero, minha mãe perguntou se eu tinha algum problema.

Confusa, eu respondi que tinha sim, afinal todo mundo tem algum problema na vida.

Ela repetiu a pergunta, mais enfática. "Você tem algum problema? Você defende tanto os gays que dá pra ficar preocupada que você também tenha algum problema."

Não sei quanto tempo fiquei olhando pra ela; provavelmente alguns segundos. Entendi que "problema" significava ser lésbica (o conceito de bissexualidade mandou um beijo e disse que tá aí pra qualquer coisa). Pensei, muito rapidamente, que aquele era o momento, e que eu deveria contar. Seria melhor assim. Só que aí eu não contei.

Senhoras e senhores do júri, eu ri.

Ri porque o meu controle emocional já tinha ido pro buraco faz tempo e porque cheguei à conclusão relâmpago de que, cara, não. Apenas não. Até mais ou menos o ano passado eu tentava me convencer de que não contaria tão cedo porque ninguém tinha nada a ver com quem eu fico ou deixo de ficar e, de brinde, ainda evitaria problemas maiores. Depois percebi que ~sair do armário~ já não era tanto uma questão de "contar que também gosto de meninas", mas era quase uma... a expressão vai ficar meio fora de lugar, mas considerem como uma aproximação: quase uma posição política, por assim dizer. Quando perguntada (milhões de vezes) por que eu defendia tanto essas pessoas, minha resposta invariável e meio vaga era dizer que é porque isso faz parte do eu acredito. Mas é difícil, terrivelmente difícil, arranjar sempre um subterfúgio pra não dizer que é também parte do que eu sou, que eu também estou entre essas pessoas e que tudo que faz mal a elas também faz a mim.

Não acho que exista alguma pessoa no mundo que não teria percebido no meu rosto a resposta óbvia à pergunta mais recente da minha mãe. Mas dei a volta e fiquei com as respostas dúbias de novo. Eu não sei se ela entendeu, e ela não sabe se eu falei. Eu queria ter dito, mas acabei voltando a pensar mais ou menos como antigamente. Mas o fato é que ela perguntou se eu tinha um problema, e isso matou qualquer chance de me convencer a falar qualquer coisa.

Porque não, cara. Problema eu não tenho. 

2012-09-13

01 reflexão

oh wait

Quando vi o trailer de The Perks of Being a Wallflower no cinema, experimentei uma sensação esquisita. Achei tudo bonitinho e fiquei com vontade de ver, mas de algum modo sabia que aquilo já não me pertencia mais. Há algum tempo eu venho tendo essa percepção de que, de repente, os filmes, séries e livros sobre adolescentes já não são mais sobre mim ou para mim. Não gosto de dizer isso, sempre soa como uma desculpa surreal, mas dessa vez eu acho que é a idade, sim. Vivi os últimos cinco anos da minha adolescência preenchendo a falta de um ensino médio “comum” com personagens; era como ver tudo o que eu sentia sendo colocado no ambiente “certo”. Mas de repente, agora, mal tendo completado vinte anos, me pego assistindo My So-Called Life com a nítida impressão de que meu tempo já passou. Já não me identifico mais com aquilo; mas já me identifiquei. E é essa noção de tempos passados que se torna meio assustadora. Um dia desses eu tava assistindo um episódio muito tranquilamente, sem nem pensar nessas coisas, quando aconteceu a cena de um beijo. Um beijo simples, de uma menina de quinze anos e o menino que ela gostava; o ponto alto do episódio. O ponto alto da vida dela naquele momento. Acho que foi aí que aconteceu a cisão. Cinco anos atrás, se eu estivesse assistindo isso, provavelmente teria ficado feliz como se fosse uma conquista minha. Identificação genuína. Hoje em dia, eu fiquei feliz pela Angela. Porque me tornei apenas uma espectadora e, ainda assim, fiquei agradecida por ainda achar a cena tão bonita, mesmo que ela tenha se tornado tão simples pra mim e mesmo que eu já não relacione mais a minha vida com a dela. Quando digo que é a idade, acho que quero dizer que é o contexto para o qual acabamos sendo levados pelo tempo (fez sentido isso? espero que sim, q). O tempo foi passando e eu saí da escola, terminei curso, entrei na faculdade, comecei a trabalhar. O tempo vai passando e de repente você percebe o real significado de não tê-lo. Você percebe que seus amigos são pessoas espalhadas por todo canto, que assim como você também estudam, ou trabalham, ou ambos, e que assim como você precisam de semanas até conseguir marcar um encontro em que todos possam estar juntos no mesmo lugar. É uma sensação curiosa, essa de sentir o tempo efetivamente passando por você. Não é ruim; é só que eu nunca pensei que fosse chegar até aqui e, tendo chegado, nada se pode fazer além de continuar. Talvez seja isso que eu veja agora nos personagens adolescentes; de repente tenho a noção de que nem sempre acaba ali e alguns deles talvez tenham se tornado os personagens com os quais me identifico agora. Talvez.

2012-09-12

Tales of contemporary horror


Estar eternamente despreparado para a vida. Achar que precisa estar preparado para alguma coisa qualquer. Buscar um sentido. Encontrá-lo e não saber o que fazer com ele. Remember you must die. Fazer um esforço descomunal para depois sentir tudo escorrer pelos dedos. Não suportar ninguém; muito menos a si mesmo. Sofrer a angústia das pequenas coisas ridículas. Remember you must die. Esquecer-se de quem é. Fugir do passado sabendo que eles não está nos lugares, não está nas pessoas; está em você mesmo. Remember you must die. Memento mori. Remember you must die.

Há algo de reconfortante e - por que não? - assustador em se identificar com personagens. Os meus preferidos formam uma galeria de fucked up people que se estende indefinidamente, mostrando que o mais triste não é que você não seja o único assim, mas sim que todo mundo ao seu redor também o seja.

2012-09-09

Sobre protestos, nudez e pluralidade


(esse post foi escrito pro Minoria é a mãe, na verdade. mas ele ficou meio ~datado~ e vou postar outra coisa, então vai aqui mesmo antes que se perca nas profundezas do google docs.)

Uma crítica comum contra pessoas que protestam nuas é que elas estão prestando um desserviço à causa feminista. Especialmente se essa pessoa tiver peitos. Aliás, principalmente porque essa pessoa tem peitos. O argumento é que a nudez seria uma forma errada de chamar atenção, especialmente a atenção de homens que objetificam essa nudez e não estão nem aí para o protesto em si.

A verdade é que isso acontece, sim. Se a mulher anda por aí com o corpo descoberto, ela está desrespeitando as pessoas. Ou, pior ainda, provocando os homens! Roupa curta demais? É uma vagabunda, está querendo se mostrar, provocar, depois não reclame se for estuprada. Roupa nenhuma, então? Putz. Dificilmente uma pessoa que estiver em algum lugar com os seios à mostra não será objetificada, avaliada como um pedaço de carne. É por essas e outras que pra muita gente ainda é ineficaz, sim, ver uma pessoa nua protestando por algo.

Ainda assim, eu não considero um desserviço. Não sou eu quem vai decidir qual forma de protestar é válida e qual não é, mas não me parece que tirar a roupa seja uma das inválidas em todos os contextos. Pode ser mal interpretado? Pode, sim. Mas até aí todas os ativismos podem, e isso não é razão para eles deixarem de existir ou de se manifestar. Até porque, se nos lembrarmos bem, eles são mal interpretados justamente por causa do motivo pelo qual protestamos. Irônico, não?

Colocando isso de uma forma mais simples, eu vejo o ato de tirar a roupa em protesto mais ou menos como ressignificar termos. Queer, por exemplo. Até pouco tempo atrás, a palavra queer significava apenas bicha ou estranho, em inglês. Hoje em dia essa palavra perdeu tanto do seu significado ofensivo que vem sendo usada para designar todas as identidades não-hetero e/ou não-binárias. Em algum momento, convencionou-se que devemos usar roupas para “esconder nossas vergonhas”. Não é que amanhã todo mundo deva sair de casa pelado e seguir alegremente para o trabalho; é só que existe um trabalho enorme de desmistificação da nudez a ser feito, que está diretamente relacionado a cultura do estupro. É só que toda vez que uma mulher aparecer nua, ela será avaliada e sexualizada. 

O assunto voltou à tona com as dúvidas ao redor do Femen Brazil. Outras pessoas já falaram disso melhor do que eu, mas o que eu queria mesmo comentar era a pluralidade de manifestações de cada causa. Uma das primeiras coisas que eu li quando comecei a ter contato com o feminismo foi uma frase muito simples: não existe um só feminismo. Parece um conceito estranho quando você vê de fora, ainda sem conhecimento nenhum sobre o assunto, e só depois passa a fazer sentido. Quando pensamos em um movimento - seja ele o feminista, o LGBT* ou o anti-racista, por exemplo -, achamos que todos os membros dele estão lutando por um mesmo conjunto de ideais, que seguem os mesmos “preceitos”, que concordam em tudo. Mas isso não chega muito perto da verdade. Existem manifestações diferentes, interpretações diferentes e ramos diferentes - e eu estou longe de conhecer sequer metade deles ainda. Existem, claro, bases em comum e identificação, mas o que eu percebo é que é a ideia da “incoerência” que é usada como argumento para invalidar não apenas a reinvidicação, mas sim até mesmo a existência de um movimento qualquer.

“Se existe preconceito dentro do movimento LGBT*, como vocês podem ter direito de lutar contra o preconceito?”

“Como levar a sério o feminismo se existem divergências?”

Existem minorias dentro das minorias. Existe preconceito dentro de movimentos contra o preconceito e, não, isso não é certo mesmo. E, no entanto, isso não invalida a causa. O fato é que há muito mais coisas pra se lutar e que o buraco é bem mais embaixo - crescemos todos no mesmo contexto que tentamos mudar e, como todo o resto, também precisamos ser mudados.

Hoje em dia o que eu acho estranho não é ver duas pessoas que defendem a mesma causa discordando de um ponto, mas sim imaginar um movimento em que não houvesse diálogo, em que a única coisa que bastasse fosse preencher certos requisitos e ser permitido fazer um protesto “limpinho”. Quando se propõe mudança, se propõe conversa.

Dentro dessas nuances estão as diversas formas de protestar e conscientizar. Eu posso ir numa marcha, posso tirar a roupa ou não, posso escrever um livro, escrever um post, dedicar minha vida acadêmica aos estudos de gênero, aplicar isso em outra área, posso falar sobre isso com as pessoas que convivem comigo, posso subir em algum lugar com um microfone e tentar falar com mais gente, posso fazer um zine, posso promover discussões, posso fazer tudo isso e muito mais, e posso até mesmo ser atingida por alguma dessas atitudes e me tornar uma parte do resultado positivo que faz com que elas continuem. Será o suficiente? Talvez nenhuma dessas ações seja, a curto prazo. Mas isso não as torna menos importantes.

2012-09-06

The greatest thing you'll ever learn

...is just to love and be loved in return.

"(...)Mas não sei. Talvez eu não tenha explicado direito, essas coisas são difíceis. Mas é só isso no fim das contas, não é? Quando você quer ficar com alguém. Você só quer estar com aquela pessoa, de algum modo. Se vocês namoram, ou se casam, ou envelhecem juntos, tudo é consequência. Só começa porque vocês querem ficar juntos no sentido mais simples que a expressão pode ter. Faz sentido?"

Eu estava escrevendo isso numa fic anteontem e, quando olhei pro parágrafo de novo, percebi que fazia sentido sim, e muito. A gente tem essa mania de separar o amor romântico das "outras formas de amor", seja lá o que for isso, mas por quê? Será que faz tanto sentido assim? Fiquei pensando nisso e chegando a algumas conclusões. É tudo tão simples e eu gosto muito quando certas coisas se reduzem à forma mais simples possível. Estou muito feliz aqui com a minha epifania de que, se um dia eu fizer uma auto-biografia, vou poder dizer sem sombra de dúvidas que amei, amei muito, e fui amada de volta. That's a good feeling.

2012-08-24

My kingdom for a kiss upon her shoulder

Eu tinha, até pouco tempo atrás, o hábito de dizer pras pessoas que gostava que estava gostando delas; isso encurtava bastante o caminho para uma consumação ou para um fora e não alimentava paixões platônicas. Mas eu parei de fazer isso. Não sei se foi a timidez que, em vez de melhorar, foi aumentando com o tempo ou se é simplesmente uma preguiça inenarrável de iniciar novas relações com novos indivíduos. O fato é que a minha crush mais antiga tem mais ou menos uns três anos de duração e não planejo contar isso pra moça em questão jamais

Uma terceira explicação, aliás, é que talvez eu apenas goste muito mais do processo de me apaixonar do que o de efetivamente ficar com alguém - não é que eu não queira o segundo, mas o primeiro pode se alongar indefinidamente quase sem prejuízo, porque fica só na idealização. Acho que a última paixão arrebatadora que eu tive aconteceu quando eu tinha uns quinze anos e, essa sim, era daquelas que eu não queria ficar apenas imaginando; namoramos por nove meses. Cadê esse meu ímpeto de ir atrás? Perdi em algum lugar dos meus quinze anos pra cá.

Outro dia essa garota, que é  uns três anos mais velha que eu, me mandou um e-mail pedindo desculpas por algumas coisas que aconteceram quando a gente namorava e dizendo que entendia porque eu tinha parado de falar com ela. Eu li aquilo e fiquei assustada quando percebi que não fazia a menor a ideia do que ela estava falando, e que tudo aquilo já tinha acontecido há uns cinco anos. E que ela pensou que eu parei de falar com ela depois que terminamos. E o pior de tudo é que é melhor que ela pense assim, porque faz mais sentido do que o motivo real, que é: nada. Não existe motivo. Eu não tinha raiva, não deixei de responder nada, mas como todas as outras pessoas com quem fiquei na vida, depois de terminar eu simplesmente começava tudo de novo como se elas não tivessem existido; eu apenas paro de procurar contato e eventualmente a outra pessoa também, ou vice-versa. Fiquei pensando em como isso é triste, como faz parecer que todo mundo foi muito descartável. Eu gostava tanto dessa garota, terminei com outra pessoa pra ficar com ela, fiz de tudo no começo... e depois simplesmente não conseguia mais me importar. Não quero fazer esse tipo de coisa de novo; o que deve ser, provavelmente, o motivo pelo qual nem cogito ~abrir meu coração~ para minha tão amada crush. Vai que, por um acaso do universo, dá certo? Não quero tratá-la desse jeito. Quero gostar dela assim, muito tranquilamente, (quase) sem riscos.

Um dia você vai se apaixonar de verdade, aí vai ver a diferença, as pessoas me dizem. Não sei o que é que se chama de se apaixonar de verdade, mas imagino que eu vá perceber a diferença quando/se acontecer. Não é algo pelo que eu espere ansiosamente. Tenho dois grandes, enormes e estratosféricos amores que não são românticos. Será que é algo parecido com isso? Talvez seja. Enquanto isso não acontece, outras coisas acontecerão - e minha crush fica aqui, muito linda em todos os sentidos, porque puta que pariu que menina linda.

2012-08-03

Status: ainda tenho dez reais pra assistir o Batman

Dei uma turbinada no meu material de desenho, que antes era formado apenas pelo caderno de desenho, lapiseira, borracha e caneta. Em minha defesa devo dizer que não gastei todo o meu dinheiro nisso - o manequim e o livro de cima foram presentes.

pfvr largando a engenharia

Me apaixonei por esse livro de Desenho de Moda desde a primeira vez que o vi na Saraiva. Ele é completamente diferente do que eu já tinha (o de Desenho Artístico que tá embaixo) e desenho de moda não é exatamente o que eu costumo desenhar, mas as ilustrações são lindas e eu tô testando coisas novas. Nessa vibe de fazer coisas diferentes, comprei lápis de cor e obviamente ainda não sei usar direito, mas ok. O próximo passo vai ser comprar carvão e fixador (e, claro, o papel certo pra usar o carvão, porque né), mas vou aproveitar mais esse novo ~mundo de cores~ antes de voltar pro bom e velho preto e branco, que ainda é o meu preferido.

O resto do meu dinheiro desse mês foi embora na onda consumista de julho, em outros livros, roupas, cinema e comida, que sempre é o que me faz gastar mais. Só julho mesmo pra me fazer gastar com roupa. Acabou que não sobrou dinheiro pra comprar os bottons que eu queria, fica pra próxima.

Bom, além disso e ainda no meu esforço contínuo para fazer coisas que eu goste, voltei a nadar. Tem muitas coisas que me fazem gostar de nadar; uma delas é simples: todos os outros esportes envolvem suor. Da natação você já sai molhado e com frio, bem melhor assim. Ok que os meus braços ainda estão doendo, mas estão melhores que ontem, quando eu não conseguia nem levantar os coitados. Mas o lado bom é que eu tenho mais fôlego do que achava que tinha - se antes eu tinha o fôlego de um hamster fumante com asma, acho que agora tenho o de uma chinchila, que é maiorzinha, e até que fui bem no primeiro dia considerando que faz mais de um ano que estou parada.

Agora vou ali decidir se leio o livro ou fico só olhando pras ilustrações mesmo.

2012-07-26

What do we say to the god of death?

Not today.

Segundo um simpático e-mail do Personare, o ano só começa de verdade a partir do aniversário - e eu, boba, pensando que era depois do carnaval. Não deixa de ser verdade, mesmo tirando o background astrológico da coisa. De um ano pra cá muita coisa mudou; talvez nem tanto por causa da idade em si, que isso é uma coisa meio subjetiva demais, mas sim porque, bem... o tempo vai passando e as coisas vão acontecendo. É assim que funciona. E eu já tive tanto medo, e por tanto e tanto tempo, que de alguma forma ele se anestesiou, estancou em algum momento do final do ano passado pra cá. E acho que a partir de hoje subi mais um degrauzinho, e já posso dizer not today. Not today, not today.

2012-07-13

Opa, já estamos em julho

e aí eu percebi que tem mais de um mês que eu não posto nada aqui. O que é um completo absurdo, porque pelo menos um blog devidamente atualizado eu deveria ter. Talvez eu simplesmente não tivesse nada pra dizer em junho, porque nada me passava pela cabeça pra escrever aqui.

Mas enfim. Julho é o mês do meu aniversário e, portanto, meu momento mais consumista do ano. Como eu me sinto no direito de comprar tudo que as modestas sobras do meu salário permitem, não estamos nem no meio do mês ainda e já fiz mais visitas à CDMax do que seria saudável supor. E estou vivendo uma crise muito intensa de indecisão sobre os livros que quero comprar. Quando eu tiver finalmente decidido, vou tirar uma foto cheia de amor das minhas novas aquisições. 

Algumas pessoas não entendem muito bem porque caralhos eu compro tanto livro se não leio todos. Ok, talvez eu tenha comprado aquela coleção do Senhor dos Anéis no meu aniversário de dezessete ou dezoito anos e não tenha lido até hoje, mas isso é só um detalhe. Eu realmente ainda não consegui passar d'Os Filhos de Húrin, precisa da vibe certa. Talvez eu tenha uma pilha de quinze livros me esperando desde o ano passado, mas isso também é um detalhe. É só uma questão de tempo, trust me.

Gosto muito de aniversários, mas o mês anterior a ele (ou seja, boa parte de junho + julho) me deixa meio desconsolada. Como eu aparentemente pulei essa fase esse ano (talvez porque estivesse trabalhando demais, é uma hipótese), estou aproveitando para tão somente ser feliz com coisas felizes. 


Enquanto isso, o IFCE está de greve como todas as outras federais, mas como é julho estou fingindo que é férias mesmo, mas não deixem o DCE ler isso. Fiz duas provas durante a greve ("professor pelego!", bradou o pierrot), acho que me saí terrivelmente mal nas duas, mas isso também não passa de um detalhe. Desenvolvi um saudável vício por Avatar, uma talvez não tão saudável crush em um personagem de animação 2D oi zuko estou falando com você, e estou torcendo pro mundo não acabar porque tem temporada nova de Korra em 2013. Ah, estou devorando Community também. 


seu lindo

Depois desse boletim informativo eu vou procurar voltar decentemente (seja lá o que isso signifique).

2012-05-27

Tem dias que a vida é um ato de coragem



E se o amor não for suficiente
Eu vou embora
Pra bem longe daqui

*

Não sabia definir o que era a sensação. Sabia que era física; disso tinha certeza. Como se algo – como um instrumento médico - empurrasse o céu da sua boca, mas vindo de dentro do esôfago. Sabia também que já havia sentido isso antes, só não se lembrava quando ou por quê. Seria prenúncio de coisas boas ou ruins? A lógica lhe dizia que só podia ser ruim porque, oras, era alguma coisa que lhe empurrava o céu da boca. Não existem alternativas boas para isso. Mas, por outro lado, não sentia nada de errado. A sensação em si não era ruim. Não era sequer desconfortável. Apenas estava lá, como quando você sente que está vestido, apenas isso.

Levantou-se normalmente às sete, com a vaga consciência de que o outro lado da cama não estava apenas vazio, mas também frio. Foi ao banheiro, se vestiu e tomou café como todos os outros dias. Mas estava sozinho. Tinha uma vaga consciência disso também, exatamente como a sensação na sua boca. Foi trabalhar, como todos os outros dias, só que sem se despedir de ninguém. Voltou às sete, fez um chá, assistiu televisão. Sabia que estava sozinho – sabia também que não era uma coisa ruim, ou tampouco natural, era apenas esperada. Ao abrir o guarda-roupa, tanto de manhã quanto agora, sabia que um dos lados estava vazio. Podia ver. Sabia das coisas que faltavam na casa e sabia, também, que nada sobrava – nem um bilhete, nem nada.

Ele sabia que ela iria embora. Não apenas porque ela tinha dito, mas porque era a única coisa que podia acontecer, como morrer é a única coisa que pode acontecer com certeza quando se está vivo. Ela tinha dito que iria embora se o amor não fosse suficiente, mas já sabia que não seria – ele sempre soube que, na verdade, nada seria. Não a culpava por isso, não lamentava, não choraria – às vezes chove, às vezes faz sol, e isso apenas se aceita. Sempre seria assim com ela também; de qualquer modo, se veriam de novo, sabia disso.

Enquanto isso não acontecesse, ficava aquele molde imaginário de gesso no céu da sua boca; não sufocava, não era desconfortável, não prenunciava más notícias. Apenas estava lá, quando ela não estava.

*

O continho ruim acima é um oferecimento de uma livre interpretação de Se tiver que ser na bala vai, d’As Travessuras da Menina Má (de Mario Vargas Llosa), e da minha falta de imaginação.

Para a Phanie - e para todos, por tabela - porque eu nunca sei se respondendo nos comentários cês vão ver, digo que feliz ou infelizmente o que eu tenho escrito ultimamente não vai ser publicado na internet porque tenho umas intenções serious business para a história, agora que ela finalmente deslanchou. Mas ainda posto e postarei partes sem ordem cronológica e que não necessariamente serão incluídas no original na boa e velha tag do Will e neste tumblr, que está em inglês.

2012-05-17

What have you done today to make you feel proud

Eu uso um bloquinho pra anotar coisas do trabalho. Ele já tá no fim, e numa das últimas páginas eu encontrei essa frase que eu coloquei aí no título escrita a lápis, bem no meio da folha. Lembrei que muito provavelmente ela foi escrita por um amigo em folha aleatória no ano passado, quando esse bloquinho ainda tava no começo e eu usava pra outras coisas (sim, é um bloquinho bem durável, como se vê). Fiquei feliz de encontrar isso hoje. Essa frase é, aliás, o refrão da música Proud - que é a música que toca na última cena de QAF

# O que eu tenho feito, então. Tenho escrito, muito. Acho que isso já seria o suficiente. Tenho tentado não me importar com a falta de sentido do mundo (mais abaixo). Tenho ~obtido êxito~ em me desvencilhar daquilo que não sou obrigada a suportar. Tenho feito mais projetos, que eu provavelmente nunca vou terminar mesmo, mas gosto de pensar neles mesmo assim. Tenho ido atrás de fazer freelance, porque tá fácil pra ninguém. E tenho, principalmente e apesar de tudo, tentado não pensar muito, porque sabe como é; quando a gente começa a pensar, fode tudo. Maio já tá na metade, junho tá chegando e inferno astral bate na porta. 

# Eu tava respondendo no formspring esses dias umas coisas em que eu comentava que o que me deixa injuriada mesmo é falta de coerência. Contrariando o que eu mesma disse, esse parágrafo é completamente sem sentido pra grande maioria das pessoas que vão lê-lo, mas enfim. O fato é que, feliz ou infelizmente, não sei, a única coisa que eu consigo pensar sobre minha situação atual é que eu gostaria de entender as razões para que o quadro na minha cabeça finalmente pudesse fazer sentido; mesmo que fizesse sentido só para os envolvidos, eu ficaria bem mais aliviada em ver que pelo menos havia uma lógica nisso tudo, que havia um planejamento - e, a bem da verdade, eu queria saber se ao menos bate com a minha teoria. Vez em quando minha mãe diz que eu sou um robô por querer tudo em termos de lógica e, bem, talvez eu seja mesmo. Não acho isso de todo ruim, em termos de relacionamento, porque se não fosse assim eu muito provavelmente estaria tomando um balde de sorvete em casa e escrevendo sobre as dores da vida em vez de estar me sentindo apenas meio erradinha em ver a coisa por um lado mais analítico. Essa cena do sorvete, na real, acontece bem mais frequentemente quando as coisas dão certo do que quando dão errado, atestando assim como o meu chip veio invertido. Enfim. A verdade é que não sinto nada que supostamente deveria sentir; nem raiva propriamente dita, ou dor ou desespero ou tristeza. Sinto apenas uma espécie de incômodo por não conseguir entender a origem e a resolução do problema, da mesma forma que me sinto quando não consigo entender um programa que não retorna o esperado. Eu poderia, claro, procurar por isso, mas decidi que é melhor não. Vamos praticar o desapego com as Exatas e viver um pouquinho na incerteza, talvez me cause menos problemas - e é nessas horas que eu penso que talvez eu tenha mesmo escolhido o curso certo, afinal.

2012-05-08

Some callin' me a sinner, some callin' me a winner

Como era de se esperar, só no penúltimo dia de férias (ou seja, dia 29 do mês passado) eu tomei vergonha na cara e fiz alguma coisa de útil. Mas não vou achar ruim porque foi somente a melhor coisa que eu poderia ter feito. Acontece que, na madrugada do dia 28 pro dia 29, achei que seria uma boa ideia escrever. Eu não tinha escrito muito esse ano, esses meses. Eu sabia o que dizer, mas não como - só que já faz um tempo que eu não me estresso muito com isso, porque sei que eventualmente as coisas acabam voltando pro seu devido lugar. Mas enfim. Dessa madrugada pra cá, tenho escrito tanto que de repente entendo ser possível uma pessoa se sentar e escrever um livro em dois meses. Ok, estou exagerando, mas nunca na história desse país eu escrevi tanto e finalmente de um jeito que eu consigo olhar e pensar: poxa, era isso mesmo que eu queria dizer. De repente até mesmo o que antes era falha na ~linearidade de conserta sozinho, de repente simplesmente o negócio começa a fluir direito. Não sei quanto tempo dura, ou se vou ter foco o suficiente pra terminar, mas que é lindo e mágico, isso é. 

2012-04-20

Não quero gastar título legal em post chato

Então o blogger finalmente mudou de aparência e eu estou aqui com medo de ir ver se ainda tem a opção de editar o html. Da última vez que eu olhei ela simplesmente não existia mais, mas vai que mudaram do beta pra cá. Mas, apesar de não gostar dos layouts do google em geral, eu gostei desse editor novo, ele é simpático.

Eu ia escrever que não tem nada de emocionante acontecendo na minha vida agora, mas isso seria uma mentira, porque hoje de manhã, ao tirar a escova de dente da boca ela voltou vermelha, e eu, perspicaz como sou, notei que não era close-up, era sangue mesmo. Cuspi mais alguns litros de sangue e até agora eu não sei exatamente o que aconteceu, mas as opções são: a) arranquei um pedaço da minha gengiva acidentalmente ou b) um pedaço do aparelho entrou na minha gengiva.

Além desse episódio sanguinolento, a vida vai seguindo com a minha vontade de escrever alguma coisa que preste, que de vontade não passa, a vaga noção de que os fatídicos vinte anos estão chegando, o eterno ciclo deprimente da minha vida amorosa fadada ao fracasso, nenhuma empolgação com o próximo semestre porque vai ter Arquitetura de Computadores e eu odeio isso, uma dúvida muita profunda referente à disposição das matérias nos meus cadernos, a vontade de pintar prontamente reprimida pelo preço das telas e tintas, a espera da oportunidade de ir na Saraiva comprar a biografia do Caio, entre outras coisas. Ah, estou deixando o meu cabelo crescer e não pintei esse mês, mas não tenho mais certeza se isso foi uma boa ideia. Como ele estava com o "corte de cabelo curto" e simplesmente foi crescendo assim mesmo, amanhã talvez eu vá lá na cabeleireira (sério que tem esse i entre o le e o re? morria sem saber) fazer o tal do "corte de cabelo comprido", e não sei se poderei refrear a vontade de dizer "tira mais dois palmos". Veremos, veremos.

 

2012-04-10

I've read the news today, oh boy

"You know, when I'm...when I'm at home I'm absolutely fine."

"Fine?"

"Yeah. Completely. I don't... I don't care and I don't even think about it. I just... I'm not embarrassed, I'm not... I'm not ashamed, and I don't... I don't want to be straight. You know, not now anyway. I'm happy. I'm happy being gay."

"But?"


"It's when I go outside, like, you know, just to Jamie's or... or to Tesco's or to work. It... It kind of... It's hard to explain, but it... it kind of feels like I've got indigestion. It actually feels exactly like indigestion. And... it just makes me angry, you know, that I feel like that because... because it's so fucking pathetic. You know, I'm a grown man, and I look at you, and... and I see you and you can do it and you're amazing."

2012-04-08

biografia de um dia só

levanto. me dou conta de que é o último dia do feriado. tento lembrar do meu sonho, sem sucesso. ovo, chocolate, macarronada, sardinha. a meta de terminar de ler a biografia do john lennon até terça-feira a apenas duzentas páginas do final. uma vaga noção de que serei reprovada em pelo menos uma cadeira; e que quando eu digo isso, a resposta costuma ser mas é claro que você passa rs. não, não passo, get over it. uma checada no fórum. muitas páginas pra ler. o desejo sincero de não ter que ver o meu chefe amanhã. será que vai chover? não tenho o que fazer no cefet amanhã. não terminei de escrever a carta; mais uma coisa pra terminar até terça. a jornada de gênero vai começar. não terminei de gravar os dvds. quem está com o dvd onde eu gravei donnie darko? a sensação insistente de que não, isso também não vai dar certo, esqueça. abrir o google docs e não escrever. abrir o word e não escrever. a pergunta você é uma pessoa exigente demais nos seus relacionamentos? repousando na inbox do formspring há duas semanas. a nota de cálculo saiu, passei. um filme visto pela metade e a esperança de terminar ainda hoje. planos de estudar física de madrugada. planos de fazer qualquer coisa de madrugada, exceto dormir. de repente dormir parece uma perda de tempo. tanta coisa pra fazer, tanta coisa pra ler, tanta coisa pra entender e eu aqui dormindo. penso mais um pouco sobre o amor e decido que não é hora, neste momento eu deveria estar passando em lógica matemática. lembro então que preciso ir no cefet sim, só pra ir na biblioteca. ver pessoas discutindo sem saber que estão concordando uma com a outra. perceber que nenhuma das minhas expectativas tem possibilidade de ser atendida. ficar triste por um momento, muito breve - afinal, você já sabia mesmo, não se faça de desentendida -, porque nunca estarei em metade dos países que gostaria de visitar. ficar triste, por um momento, dessa vez já não tão breve, pelo pequeno apartamento que nunca irei decorar. vejo um gato bebê entrando no jardim pra beber água; vou dizer oi, ele foge. lamento os cigarros perdidos. o céu tá se formando, daqui pra amanhã chove. descubro que cheiro ruim na cozinha é uma fruta podre. penso por um momento se eu tenho capacidade de escrever poesia, desisto alguns segundos depois. abrir o caderno e não escrever. decidir por um momento escrever sem pontuação alguma, desistir um pouco depois. ser incapaz de definir um final pra um post de blog.

2012-03-25

Epic fail

Estou querendo ver um filme, ler um livro, ou talvez até escrever um (embora esta última seja, erm, um pouquinho mais difícil que as outras duas opções). Estou querendo fazer qualquer coisa que desligue a minha cabeça por algumas horas da minha própria existência, da minha própria vida e dos meus próprios pensamentos. Quero ser um personagem, só por um pouquinho de tempo. Se não for possível, eu posso ir estudar Cálculo, que tá valendo também.

O que acontece é que tem esses dias - ou, melhor dizendo, enormes períodos de tempo, que eu esqueço quando começaram e não consigo antever um final - em que eu sinto que estou falhando em todas as áreas da vida, assim, simultaneamente. Não é uma sensação legal, porque na maioria dos casos eu poderia ter feito diferente, poderia ter feito dar certo ou simplesmente acontecer, e apenas não fiz. Tenho a impressão de que as épocas em que eu mais leio correspondem justamente a esses períodos - preciso de um escape. 

Mas acho que agora, neste exato momento, tá sendo mais negócio ir estudar Cálculo mesmo.

2012-03-22

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte

“...te procuro em outros corpos, juro que um dia eu encontro.”

Ontem eu sonhei com aquele amigo nosso, você sabe. No meu sonho, ele era loucamente apaixonado por mim, e me contava isso. A gente se dava as mãos e corria, corria, fugindo sabe-se lá de que para ficar sozinhos. Eu sonho com muita gente, você sabe, já sonhei contigo também. Acho que já sonhei com todos os meus conhecidos; pra cada um deles, uma história de amor, e eu gosto de sonhar assim porque gosto de me apaixonar. Mas, sabe, esse negócio de amor tem me tirado o sono, no pun intended. É amor pra lá, é amor pra cá, é amor o tempo todo; será que não cansa? Tudo é sobre amor nessa vida. Eu ligo a televisão e tem história de amor, vou ler um livro e tem história de amor, vou ouvir uma música e é sobre amor... Veja você que não é que eu não goste de ouvir falar de amor; eu até que gosto, mas eu vejo e leio e ouço essas coisas e não sei de onde é que elas vêm. Mas eu queria saber. Queria amar desse jeito que eles falam que existe, desse jeito que ensinaram a gente. Porque quando eu sonho, eu amo assim. Olha que engraçado, eu li em algum lugar que, por mais que pareça ser mais, a gente nunca passa mais do que cinco minutos sonhando. Não sei se é verdade, mas vá, é bonito: todo sonho dura só cinco minutos, e nesses cinco minutos eu já vivi um monte de histórias de amor. E todas elas foram a primeira vez. Só que o problema é que eu acordo, e quando eu acordo o amor já não existe mais. Será que você consegue entender? Eu queria um amor assim, desses que você precisa ouvir a voz da pessoa todo dia, desses que você precisa saber se ela tá bem, desses que a sua vida se enrola na dela de um jeito que as duas viram uma só. Tô aceitando um amor simples, tô aceitando um amor épico – How can I live without my life? How can I live without my soul? Te juro que tô surpreso por essa citação não ter dado o ar da sua graça nos meus sonhos ainda -, tô aceitando amor. Tô aceitando alguém que me ensine. Às vezes eu acho que vocês, que aparecem nos meus sonhos, são sempre a mesma pessoa. Espera, eu te explico. É sempre uma pessoa diferente, mas é sempre o mesmo conceito. Eu me apaixono é pela ideia de me apaixonar, sabe como é? Meio bonito, mas meio triste. Eu sempre tenho dificuldade em decidir se alguma coisa é bonita ou triste, sempre quero ficar com os dois. Eu fico pensando... Será que um dia eu vou amar? Amar assim, desse jeito que eu falei. E aí um dia eu vou virar pra pessoa e dizer “porra, era isso mesmo, eu sonhei com esse amor”, e ela vai achar bonito, sem saber que eu tava só sendo literal mesmo. Mas às vezes eu não acho ruim, sabe. Eu tô aqui falando e falando e não sei nem te dizer quantas vezes eu falei a palavra “amor”, mas a verdade é que às vezes eu nem me preocupo tanto. Mas é que tem dias, assim, que nem esse, em que parece que it’s all about love. Daí eu penso, assim, comigo mesmo: vai fumar, vai trepar, vai aguar uma planta que isso passa. Se passar, tudo bem, no outro dia eu durmo e amo outra pessoa, e a vida continua. Se não passar, aí eu fico tagarelando assim contigo, me lamento pela não existência do amor na minha vida, no outro dia eu durmo e amo outra pessoa. Então é isso, acho que eu vou ali dormir, que isso passa. Mas fica aí o meu pedido, ficam aí os meus versos do dia seguinte que de versos não têm nada. Acho que nem tô pedindo muito; tanta gente pedindo coisa escrota por aí. Um dia, quem sabe, talvez, eu venha a amar, e aí eu te conto como foi. 

2012-03-07

Dance like no one’s watching

…because they’re probably not


Eu não tenho nenhuma vontade específica de morar fora do país, nada do tipo que me faça desejar ardentemente, planejar e realizar. Mas, se tivesse oportunidade e dependendo dos motivos, provavelmente iria. 

Tô dizendo isso porque, de vez em quando, me dá uma vontade enorme de ir pra algum lugar completamente diferente. Uso o exemplo de outro país porque é o mais longe que posso alcançar, mas se tivesse opções de planetas provavelmente eu estaria citando também. Um dia, talvez, se eu vier a cagar dinheiro, vou poder fazer isso.

O isso a que eu me refiro é, como eu disse, ir para algum lugar completamente diferente; mas não pra morar de vez, nem pela vontade de conhecer o lugar; é só pelo simples prazer do reset. De poder estar num lugar onde ninguém, absolutamente ninguém me conhece num raio de muitos e muitos quilômetros. Nenhum rosto conhecido na rua. Nenhum lugar onde eu já tenha estado. Nenhuma pessoa que não precise me perguntar o meu nome ao falar comigo. Um lugar onde eu ainda não tenha uma vida.

Eu estava pensando nisso outro dia; quando ninguém te conhece, de certa forma você também não se conhece. É uma fuga, é claro, não estamos falando de coisas nobres aqui. Então, a minha fuga só precisaria disso: passar algum tempo em algum lugar qualquer em que o único pré-requisito seja que lá ninguém me conheça. E então eu não precisaria ser ninguém, porque eu poderia ser qualquer um. 

Falando assim parece até que, sei lá, eu sou a Angelina Jolie (mas quê) e preciso de um tempo longe dos holofotes. Mas o sentido todo é só esse mesmo: os lugares onde a gente fica guardam tanta coisa, que você pensa que o passado todo está neles. Não está, é claro; recorrendo a um clichê básico, o meu passado está comigo e não vai ser só indo de um lugar pro outro que ele vai ser simplesmente apagado. Mas eu acho que, de qualquer forma, vale a tentativa, nem que seja pelo ar fresco. 

*

Esses dias eu tenho estado muito sozinha, no sentido "sem ninguém ao redor" mesmo. É uma coisa engraçada, porque eu gosto e desgosto de ficar assim. Pelo menos uma vez por semana sempre vem alguém na minha humilde salinha me dizer que, poxa, deve ser meio chato né, ficar trabalhando lá, sozinha, sem ninguém pra conversar. Que deve dar sono. Olha, sono dá mesmo, mas. Eu gosto de passar a manhã sozinha lá. Fazer minhas coisinhas, ler um pouco, esperar o tempo passar. Gosto de andar, se possível na sombra, e ir ouvindo minhas músicas no ônibus, que também sou filha da entidade de minha preferência. 

Enfim, de modo geral eu não me incomodo de estar sozinha em algum lugar. Esses dias todos em que adotei o Plano de Emergência de Fim de Semestre - que consiste em não faltar mais aulas, um esforço quase hercúleo, diga-se de passagem q - eu praticamente não abri a boca. Não é de todo ruim; até porque não é como se não existisse mais ninguém no mundo com quem eu fale, é só que nossos horários são uma bagunça. 

Então, nos momentos em que eu tô sozinha, simplesmente me deixo estar. 

2012-02-24

Pequenas considerações menos pessimistas sobre a vida

Depois de destruir meu violão*, minha vontade de ter alguma espécie de capacidade musical reincidiu sobre as letras. Deve ser uma coisa muito muito muito interessante escrever música, e eu não faço nem ideia de como se procede. Mas imagino que seja um negócio só pra quem tem uma puta capacidade de síntese, porque olha. Enfim, divagações.

*

Minha madrugada de ontem foi um cu - conforme registrado no post anterior -, minha manhã de hoje foi meio anestesiada, e então ela se tornou um lampejo de esperança. O almoço foi legal porque teve lasanha (bom, cheirava a lasanha e tinha gosto de lasanha, então acho que era) e um suco de limão que me gelou até a alma. A tarde e o começo de noite foram felizes porque sentei num sofá fofo, tenho amigos fofos, tirei alguns segundos pra ficar olhando para três filhotes de gato fofos. Minha noite tem sido só normal e reflexiva. Isso tudo só pra dizer que ainda percebo um tipo de leveza estranha, que me faz de certa forma confiar no que quer que a vida vá me aprontar daqui pra frente. Isso é novidade pra mim. É como uma sensação contínua de querer escrever, só que sem a frustração de não escrever. Não tô mais fazendo sentido, então vamos parando né.

Enfim, eu só queria escrever mesmo pra dizer que agora tá ok. Que agora eu confio, não sei quando, não sei como nem por quê. Mas é uma coisa boa.


mentira, só quebrei uma corda.

Uma constatação

Aquele momento chato em que as pessoas que disseram que eu sou uma pessoa horrível é que estavam certas.

2012-02-22

21.02.2007

me parece que foi nessa data, mas não tenho certeza. não tem muita importância agora; gosto mais de comemorar épocas do que datas.
"Eu lembro como você me olhava quando eu chegava em sala, atrasado, pra variar (e, às vezes, me mandava mensagem perguntando se eu iria pro colégio ou dizendo que eu estava perdendo a aula do Bandeira). Caminhava em tua direção e sentávamos nos mesmos lugares todos os dias. Lembro de tuas unhas grandes, pontudas e quadradas. Lembro de ficar com raiva por não conseguir obter nenhuma informação antecipada através de suas expressões (inexpressivas). Lembro que teus seios marcavam na farda e isso era muito sensual, apesar de você não ligar à mínima. Lembro de te ver escrever – e essa é uma das coisas que sinto mais falta: as linhas do teu caderno eram pretas (não sei por que lembro isso) e se alguma parte do Will não lhe agradava você apagava folha por folha, explicando-me que não precisava apagar perfeitamente e que eu e tua mãe éramos muito perfeccionistas nesse ponto. Hoje eu fico em dúvida em como, de fato, devo apagar."
somos dois saudosistas irrecuperáveis. desses que se encontram pra falar do tempo e do passado, desses que escrevem sobre si mesmos em todo carnaval, desses incapazes de escrever cartas com menos de dez páginas. 
"Lembro de como eu não queria estar com mais ninguém, de nossos segredos secretos, de nossa alma escancarada. Lembro do primeiro dia que te vi e, inexplicavelmente, da saia marrom que você usava e te fazia parecer, sei lá, diferente. Lembro de como estar com você parecia eterno até o dia que lembro que te abracei porque você iria partir, de te ver olhar para trás através do vidro traseiro do carro azul da tua irmã e depois de não ver mais o carro nem você nem nada."
tu me escreveu esses parágrafos em setembro de 2010. 
"E eu lembro, sobretudo, de nossas promessas, de nos darmos nossas liberdades, de brincar com tua orelha, da biblioteca e de te fazer ir pra coordenação. Lembro-me de não nos importarmos nem por um segundo, pois nós sabíamos de tudo. E, hoje, penso não saber de nada."
seis carnavais. e contando. 

2012-02-17

Amélie Poulain me entenderia

Já que ainda estamos no começo do ano, achei que não seria má ideia fazer uma listinha de pequenos prazeres e decisões que eu preciso praticar com mais frequência.


.x. Alugar filmes & comprar livros na livraria
Porque esses dois atos geram basicamente a mesma sensação: o prazer de andar pelas prateleiras, escolher um livro/filme, ler a sinopse, tocar neles e levar pra casa na mesma hora. É o tipo de coisa que não acontece quando você baixa um filme ou compra um livro pela internet. Só é uma pena que comprar livro ainda seja bem mais caro que alugar filme.


.x. Ficar perambulando por sebos
Faz muito muito muito tempo que não faço isso. Somado à sensação que eu falei no item anterior, tem ainda aquela de encontrar um vendedor simpático. Nesses sebos/locadoras pequenos em que quase ninguém entra você quase sempre encontra aquele vendedor que passa o dia todo lá, inventando coisas pra fazer e sem conseguir vender nada. Eles se enchem de esperança quando a gente entra e são simpáticos, você acaba saindo de lá sentindo que fez alguma coisa boa pelo dia daquele cara.

.x. Assistir filmes
Porque a quantidade de filmes que eu tenho salvos aqui e nunca assisti (ou só assisti pela metade, o que é perigosamente mais comum) é vergonhosamente grande. Esse ano eu tenho me policiado mais pra terminar de assistir os filmes que começo, e é ótimo. Meu recorde foi num fim de semana aí em que consegui engatar seis filmes em um dia.

.x. Escrever fic
Faz mais ou menos um ano (senão mais) que eu não escrevo fic for real. Os motivos são muitos, desde as reviravoltas da minha vida até a simples falta de tesão. Mas ele tem voltado, e eu tenho escrito um pouquinho. O passo ainda é de tartaruga, mas tá saindo do lugar e tô feliz com isso; eu meio que tinha esquecido como é divertido escrever fic. 

.x. Ler fics de outros fandoms
Quero ler de Harry Potter também, mas eu li tão pouco de outros fandoms que acho que vale a pena me aventurar. Especialmente em Doctor Who e Star Trek.

.x. Ler e escrever mais em inglês
O que me fode é que o acervo de livros em inglês que tem na biblioteca do IFCE é ridiculamente pobre. Tem pouquíssimos livros, e pra comprar... bem, basta dizer que eu não tô com dinheiro pra comprar nem pocket book na Saraiva, então avaliemos. Talvez um dia eu me aventure no acervo da Casa de Cultura na biblioteca da UFC, já que dizem as lendas que eu tenho acesso a ele - nunca testei.

Esse é o meu último ano no Inglês e quero melhorar a escrita, tanto pra fazer o curso avançado depois quanto porque... bom, porque é legal, né. Tem coisas que eu realmente prefiro escrever em inglês, mas meu vocabulário ainda não é essas coisas todas e eu não treino o suficiente. O que eu escrevo em inglês eu posto neste tumblr; pra você ver como a quantidade de textos publicáveis que eu escrevo é imensa, tem apenas UM POST nele \o/

.x. Escrever mais cartas
Eu chego a levar três meses pra escrever uma carta só, tem que ver isso aí.

.x. Voltar a escrever como antes
No sentido de qualidade. Tava vendo umas histórias e textos antigos e, minha gente, eu escrevia bem melhor do que escrevo agora.

.x. Desenhar mais
Plano básico pra todos os anos da minha vida, mas em poucos eu coloco em prática. Começarei neste feriado. Um sonho: desenhar nus com modelos reais, mas acho que mamãe não gostaria de encontrar gente nua no sofá da sala, então né.

.x. Voltar ao violão
Sei mais nem como é que faz um dó, essa é a minha vida.

.x. Estudar 
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA, ok né
Mas a meu favor devo dizer que essa semana eu passei uns três dias indo pra TODAS AS AULAS, um feito quase inédito esse semestre. É meio deprimente tirar notas baixas na sua matéria preferida, então fiquei traumatizada e meio que decidi que seria uma boa ideia PASSAR DE SEMESTRE.

2012-02-10

I want to become immortal and then die

Hoje eu recebi uma carta – enorme, diga-se de passagem – do meu Pierrot. Nela, entre muitas outras coisas, ele comentou que, afinal, talvez eu só seja um espírito velho, desses que já viveram muitas e muitas vidas por aqui. Ele disse isso por causa da minha ligeiramente mórbida sensação de que, de alguma forma, a minha vida está acabando. Eu não gosto de falar sobre isso nem escrevendo, mas vá. A questão é que durante muito tempo eu tive muito medo de muita coisa. Ainda tenho, é claro, e alguns são perfeitamente plausíveis, outros completamente irracionais. Mas de uns tempos pra cá eu tenho percebido que as coisas estão se encaixando no seu devido lugar, como eu sempre quis que estivessem, aliás. Que eu não tenho mais tanto medo assim e que, de alguma forma não apenas poética, eu posso finalmente respirar.  

No one’s gonna take me alive
You and I must fight to survive

Quero tatuar isso algum dia. Talvez nas costas, mas até lá tenho tempo de decidir. Sim, é de uma música do Muse, mas resume tanta coisa pra mim que é o bastante. Pra falar a verdade, já tem algum tempo que eu tenho uma listinha de coisas tatuáveis – frases, principalmente. Vou anotando e deixando lá, pra ver quanto tempo dura a ideia/vontade. Se durar bastante tempo sem arrefecer (= anos), então é porque já dá pra considerar seriamente. A do Muse não é a minha prioridade, mas é uma delas. Acontece que cada uma das minhas ideias de tatuagem tem uma razão específica de ser, mas semana passada eu decidi quando fazê-las. Não no sentido de marcar dia e hora, mas é que eu sempre considerei tatuagens mais como lembretes do que como enfeite. Um dia decidi que quero marcar meu corpo com o tempo que for passando por ele. Eu quero fazer essas tatuagens para me lembrar de coisas que não posso esquecer e poder lembrar que tive tempo. É uma frase estranha e meio sem sentido vista assim, de longe, but still. Em algum momento, eventualmente, a vida vai me surpreender, e então eu vou saber que esse é meu quando.

2012-01-30

Veja bem, meu bem

because tonight is
just like any other night
that's why you're on your own tonight


hoje, um tempo depois que você saiu e quando eu já estava mais apresentável, eu comprei um cigarro. Não veja isso como uma afronta ou algo tipo - e eu sei que você vai entender que não é -, mas é que você não gostava que eu fumasse e, de alguma forma, qualquer uma, eu precisava me convencer de que nós não estávamos mais juntos. Não sei se ainda estou plenamente convencida, mas a fumaça ardeu na minha garganta e secou as minhas lágrimas. Você disse que eu tava estranha esses dias, e eu tava mesmo. É que eu estava com medo. É que semana passada eu sabia que era a última vez. Eu percebi. Ontem eu dormi muito tarde, pensando na vida, tentando imaginar como seria daqui pra frente. Eu já sabia. Saber talvez seja uma palavra muito forte; eu desconfiava. E eu fiquei com medo, e fiquei triste, é claro, porque eu queria que fosse bonito. Mas veja só a injustiça que eu estou cometendo; foi bonito sim, disso eu não tenho dúvidas. Eu só não queria que acabasse. Mas eu entendo, porque eu teria feito o mesmo. Eu teria dito o mesmo. E talvez por entender tão bem assim seja tão mais difícil. Eu nem estou com raiva, nem nada do tipo. É só que eu não conseguia falar mesmo. Você sabe, eu não posso falar quando tô chorando, senão choro mais ainda. E eu ainda vou chorar, porque sou dessas, mas é só tristeza - não porque podia ter dado certo, mas porque deu, e acabou assim mesmo. Eu escrevi uma vez que existem poucas coisas mais bonitas do que entender que tudo precisa ter um fim. Eu queria ter te agradecido, mas não consegui na hora. Então agradeço agora, por tudo.

2012-01-26

Everything's fine until it's not II - ou um pouco mais a declarar

Ontem eu estava assistindo um filme quando me lembrei da "melhora da morte" - aquele momento em que uma pessoa muito doente, já desenganada, melhora subitamente sem nenhum motivo aparente. E então morre no dia seguinte. Pensei então em como eu estava me sentindo bem esses dias, subitamente renovada, como se finalmente as coisas estivessem no seu lugar, e em como seria irônico se isso fosse algum tipo de calmaria antes da tempestade - pra dizer o mínimo.

E isso, senhoras e senhores do júri, é um exemplo perfeito da minha auto-sabotagem.

Vou tentar considerar isso como só mais uma ~flutuação de humor~, e vamos vivendo. Não tem outro jeito de saber como as coisas vão ficar, afinal.