E se o amor não for suficiente
Eu vou embora
Pra bem longe daqui
*
Não
sabia definir o que era a sensação. Sabia que era física; disso tinha certeza.
Como se algo – como um instrumento médico - empurrasse o céu da sua boca, mas
vindo de dentro do esôfago. Sabia também que já havia sentido isso antes, só
não se lembrava quando ou por quê. Seria prenúncio de coisas boas ou ruins? A
lógica lhe dizia que só podia ser ruim porque, oras, era alguma coisa que lhe
empurrava o céu da boca. Não existem alternativas boas para isso. Mas, por
outro lado, não sentia nada de errado. A sensação em si não era ruim. Não era
sequer desconfortável. Apenas estava lá, como quando você sente que está vestido,
apenas isso.
Levantou-se
normalmente às sete, com a vaga consciência de que o outro lado da cama não
estava apenas vazio, mas também frio. Foi ao banheiro, se vestiu e tomou café
como todos os outros dias. Mas estava sozinho. Tinha uma vaga consciência disso
também, exatamente como a sensação na sua boca. Foi trabalhar, como todos os
outros dias, só que sem se despedir de ninguém. Voltou às sete, fez um chá,
assistiu televisão. Sabia que estava sozinho – sabia também que não era uma
coisa ruim, ou tampouco natural, era apenas esperada. Ao abrir o guarda-roupa,
tanto de manhã quanto agora, sabia que um dos lados estava vazio. Podia ver.
Sabia das coisas que faltavam na casa e sabia, também, que nada sobrava – nem um
bilhete, nem nada.
Ele
sabia que ela iria embora. Não apenas porque ela tinha dito, mas porque era a
única coisa que podia acontecer, como morrer é a única coisa que pode acontecer
com certeza quando se está vivo. Ela tinha dito que iria embora se o amor não
fosse suficiente, mas já sabia que não seria – ele sempre soube que, na
verdade, nada seria. Não a culpava por isso, não lamentava, não choraria – às vezes
chove, às vezes faz sol, e isso apenas se aceita. Sempre seria assim com ela
também; de qualquer modo, se veriam de novo, sabia disso.
Enquanto
isso não acontecesse, ficava aquele molde imaginário de gesso no céu da sua
boca; não sufocava, não era desconfortável, não prenunciava más notícias. Apenas
estava lá, quando ela não estava.
*
O
continho ruim acima é um oferecimento de uma livre interpretação de Se tiver que ser na bala vai, d’As Travessuras da Menina Má (de Mario Vargas Llosa), e
da minha falta de imaginação.
Para a Phanie - e para todos, por tabela - porque eu nunca sei se respondendo nos comentários cês vão ver, digo que feliz ou infelizmente o que eu tenho escrito ultimamente não vai ser publicado na internet porque tenho umas intenções serious business para a história, agora que ela finalmente deslanchou. Mas ainda posto e postarei partes sem ordem cronológica e que não necessariamente serão incluídas no original na boa e velha tag do Will e neste tumblr, que está em inglês.
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