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2010-07-20

I've got something in my throat

#20 — The one that broke your heart the hardest

Bom, tu não era especialmente bonita. E nem precisava ser, porque, né, a gente só tinha treze anos. Tu era mais baixa do que eu, e naquela época eu era relativamente alta. Veja só a ironia da vida: hoje em dia é meio difícil encontrar alguém mais baixo do que eu, então é bem provável que tu tenha ficado mais alta também e só eu tenha parado por ali. Sabe, se tiver alguém do nosso colégio me stalkeando - acho bem improvável, mas né - não vai ser difícil deduzir quem tu é. Mas enfim. 

A gente começou a se falar por causa de Harry Potter também. Era um dos primeiros dias de aula da boa e velha quinta série - que hoje chamam de sexto ano, vai entender! -, e a professora (ou professor? nem lembro) estava pedindo pra gente falar sobre o que gostava de fazer. Tu disse que gostava de ler livros, e citou Harry Potter. Naquela época eu já tinha começado a ler, e nós estávamos esperando o quinto livro sair. Eu falei contigo no fim da aula, no pátio, não lembro se naquele dia ou depois. A gente começou a conversar, sobre Harry Potter e sobre tantos outros assuntos que interessam as meninas de onze anos.

Ah, cara, era tudo tão legal! Tu era minha melhor amiga, naquela época em que as amizades tinham todos esses contornos específicos de intensidade. A gente conversava muito, a gente gostava de ler e, caramba, nós éramos as meninas mais inteligentes da classe! De verdade.

Tu usava um gloss bem brilhante, sabe, daqueles que parecem que deixam a boca meio grudenta? Era legal. Tu tinha um celular da Xuxa que eu achava um máximo. No meu aniversário, quando eu ganhei um celular, a primeira coisa que eu fiz foi te ligar pra contar a novidade. O meu não era da Xuxa, mas era legal também - e graças da Deus, né, porque esse celular durou uns quatro anos. Imagina eu ainda ter um celular da Xuxa aos quinze anos? Erm, não.

Apesar de ter sido tão legal, eu não gosto muito de lembrar desses tempos, sabe? Porque a única parte boa era que tu era minha amiga, mas o resto todo desmoronou. Todo mundo gostava de ti e por isso tuas outras amigas cool também falavam comigo, mas era porque tu gostava de mim. Elas me achavam chata e, bom, chata eu sou até hoje! Só que naquela época eu era chata porque estudava muito e era feia e mesmo assim tinha a audácia de me achar igual a elas. Ainda bem que eu não era, hein?

E então veio aquele ano. Esse definitivamente eu faço questão de apagar alguns meses - quase todos, na verdade - da minha memória. A gente tinha treze anos, e você não era especialmente bonita, mas era tão legal. Tu gostava de mim, sabe? Eu realmente gostava de ti, e acho que, não fossem uns e outros acasos, poderíamos ter sido ao menos colegas até hoje. Só que naquele ano tanta coisa mudou, e eu não sei exatamente porque foi, não sei quando começou, mas eu achava que gostava de ti de outro jeito. Eu digo que "achava" porque, bom, hoje em dia eu vejo que deve ter sido só alguma coisa de momento mesmo. Sabe como é, né? A gente se apaixona tão fácil, e com tanta intensidade às vezes, que até parece que é de verdade. 

Sabe por que, também? Porque até aquele eu sempre tinha tido apenas uma amiga de cada vez. Sério. Os outros eram coadjuvantes, mas àquela amiga em especial - que era tu - eu me apegava demais. Porque era a única, sabe? Então tudo era multiplicado por mil. 

Eu lembro que a gente deixou de se falar de um jeito tão abrupto que eu não entendi por um bom tempo. Tu simplesmente não queria mais falar comigo. E, por extensão, ninguém mais falaria, é claro. Vieram os boatos, diziam lá no teu grupinho que eu tava gostando de ti. Bom, eu tava mesmo, né? Mas a gente só tinha treze anos, cara. Eu estava descobrindo um mundo novo, e tu estava segurando fortemente as colunas do velho. Eu não te culpo por isso, na verdade. Eu sei que deve ter sido assustador pra ti que os outros pensassem que tu também estava entrando nessa. Mas eu esperava mais de ti, sabe? Muito mais. Eu esperava que tu me ouvisse. Que a gente conversasse sobre tudo, como sempre tinha sido até então. Até porque esse meu crush nem durou tanto tempo assim. Foi só o suficiente pra acabar tudo que existia antes.

A parte boa desse ano foi eu comecei a conversar com outras pessoas. Aquelas mesmas pessoas que, de dentro do seu grupinho, a gente via como chatas e invejosas. Aquela típica divisão das menininhas populares e das que não são, sabe? Eu comecei a me sentar do lado das que não eram. Eu comecei a conversar com a menina com quem eu tinha brigado desde o primeiro dia da alfabetização. Ficamos amigas, veja só. Em poucos dias, dá pra acreditar?

Eu não te culpo tanto por isso porque, de certa forma torta e irônica, foi por tua causa que tive os melhores amigos do mundo. Sim, no plural. Éramos, o que, uns sete? Meninos e meninas. Eles eram mesmo os melhores amigos do mundo, aquelas pessoas teoricamente fracassadas só porque não liam a Capricho, sabe?, e era uma amizade baseada na verdade. Era muito bom. Era melhor. Eu me senti finalmente sendo alguém de verdade, e não procurando uma brecha, uma migalha, por onde os outros poderiam gostar de mim por intermédio de outra pessoa. Isso é meio clichê, mas eu finalmente pude ser eu mesma.

No último dia de aula da oitava série, tu me deu uma carta. Não lembro se respondi, e não sei onde ela está agora. Acho que nela tu se desculpava e dizia que estava confusa quando aconteceu tudo aquilo. Tudo bem. Outro dia, há muito tempo, a gente "se encontrou" no orkut. Outro dia a gente se falou no msn. 

Eu não sinto falta daqueles dias, não queria que voltassem, mas também nunca te odiei nem nada do tipo. Mas só que, mesmo eu tendo encontrado todas aqueles amigos tão legais, eu também aprendi outras coisas com isso. Aprendi a ser mais dura, porque eu confiava demais nas pessoas. Aprendi a fingir que não me importo quando me ofendem, porque eu não iria mais chorar na frente de ninguém daquele colégio nem de qualquer outro. Aprendi a rebater, queria que tu visse como eu afiei minha língua nesses anos todos! Viu só o quanto que tu me ensinou?

Eu não queria que as coisas fossem diferentes, apesar de tudo. Espero que tu esteja bem. No ano passado eu vi teu nome na lista dos aprovados da UFC, só não me lembro qual foi o curso. Agora a gente vai levando a vida, né, e espero que não nos encontremos mais. Realmente, tem coisas que é melhor esquecer.

3 comentários:

Chrissie disse...

Hahahahaha.
Engraçado como são as coisas.
Teno uma amizade bem parecida com essa.
Realmente, esse até que foi um bom final.
(L) Eu te admiro, garota.

Tangerina disse...

Eu te admiro, garota. [2]

hahah

"Éramos, o que, uns sete? Meninos e meninas. Eles eram mesmo os melhores amigos do mundo" > isso me lembrou tanto eu e meus sete amigos. Q

Morgana G disse...

É sempre ruim quando alguém machuca a gente. É pior ainda quando vem de pessoas TÃO próximas. Nem sei como seria se fosse comigo, até porque sempre preferi amigOS e o meu melhor já teve que conviver com o que eu "nem sabia se sentia de verdade" mas a gente conseguiu superar. Eu, ele e no seu caso, você. Essas coisas são boas mesmo pra nos fazer mais fortes. As vezes parece até ser necessário, mesmo com as percas.

Sempre vale a pena juntar coragem pra ler teus posts.
Beijão