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2013-02-20

Untitled, 1997

Acordou assustado, sem saber muito bem onde estava. Havia muito tempo que seus sonhos eram apenas lembranças de coisas que realmente aconteceram; um mosaico de memórias se repetindo incansavelmente, sem nenhum elemento novo. Mas aquele tinha sido diferente. Naquele, como ele lembrava claramente agora, a mala era desfeita, as coisas aconteciam de outro jeito. Tentou se agarrar ao que restava do sonho como um afogado - sabia que esqueceria logo. Ficaria apenas aquilo que fica de todos os sonhos; uma lembrança opaca do que foi sentido e quase nada do que foi visto.

Aos poucos as coisas foram voltando ao lugar. Estava no quarto, na cama, era madrugada, a esposa dormia ao leu ado. Ficava mais difícil lembrar do sonho, mas sabia disso com certeza: a mala era desfeita, ele voltava para a cama, mas era outra pessoa que estava ao seu lado. Era uma lembrança, afinal, como todos os outros sonhos, mas adulterada. Pois ele tinha, sim, feito uma mala, se levantado da cama e saído em uma madrugada como aquela, muitos anos atrás. Procurava palavras que descrevessem mais cruamente seu ato; fuga e abandono eram sempre as primeiras da lista. Era ridículo, pensava, enquanto a tentativa de reprimir o choro o fazia se retesar tanto que poderia implodir, era ridículo lamentar agora pela outra época da sua vida, como a chamava. Ele não era feliz. Não era. Não era? Às vezes achava que sim, às vezes não tinha certeza, mas isso também não era ruim porque se dava conta de que na verdade não tinha importância. Mas em momentos como aquele, sentia uma vergonha terrível de si mesmo por sentir tanta falta daquela outra época, aquela da qual não podia falar.

Pois naquela época, se tivessem lhe contado que iria se casar um dia, não teria acreditado. Riria, até. Mas estava ali, ao seu lado, a segunda esposa, um pouco mais nova que ele, certamente mais bonita do que merecia. Era estranho pensar que ela o conhecera assim, do jeito que era agora, e não desconfiava do que havia existido antes. A outra, a primeira esposa, o tinha conhecido bem na transição entre o que ele era e o que tinha se tornado, se é que as pessoas algum dia param de ser tornar algo. Lembrava de quando tinha voltado pra casa pela primeira vez desde a sua fuga, do enterro dela e de como se percebia deslocado quando inserido de novo na sua antiga vida. Já tinha se tornado aquele outro algo, mais duro até consigo mesmo.

Já era tarde demais agora - nunca conseguiria se lembrar de todos os detalhes do sonho. Mas a vida acordado é assim também, ele sabia, uma sucessão de lembranças muito sentidas e pouco vistas, não raro até mesmo distorcidas. Não fosse assim, colocando de lado, propositalmente, os chutes, o falatório sobre as circunstâncias do seu nascimento, o cheiro de doença da bisavó, como lembraria da infância como algo tão bonito? Mas sabia que aquela outra época da sua vida ainda não estava tão distorcida assim; conseguia ainda enxergar aquele aspecto amargo, talvez agridoce, não conseguia decidir, que permeara toda a sua juventude. Conseguia sentir falta dela, com tudo que havia de bom e ruim. Fechasse os olhos, sentiria de novo o cheiro de tudo mais uma vez; sexo e sangue e suor e até mesmo neve e o cheiro dele, não o perfume, mas o da pele, o que não muda e que fica em tudo que fique na gente por tempo o suficiente; talvez tenha ficado nele também. Sim, queria que ainda pudesse encontrar aquele cheiro em si, mas havia apenas nele, toda vez que se aproximava, agora apenas um amigo, nada mais que um oásis na multidão de cheiros esterilizados que havia na sua vida agora.

Não era homem de "e se", não gostava de pensar no que poderia ter sido, mas não podia evitar; e se tivesse desfeito a mala, voltado pra cama, ficado ao lado dele? Teria ido embora em um outro dia, teriam brigado alguns anos depois? Talvez ainda estivesse ao seu lado, ali, agora mesmo, em vez daquela pessoa que de repente lhe parecia uma estranha. Mas não tinha como saber, era por isso que não gostava de "e se", pra início de conversa, e essa era a pior parte.

Não, se dava conta de que a pior parte seria outra. Seria vê-lo no dia que amanhecia agora e sentir aquele calor estranho, abafado por camadas e mais camadas de dissimulação, como se aquela outra época, aquela juventude interrompida tantos tempo atrás voltasse de repente e fosse a primeira vez que se viam. A primeira não, porque apesar de tudo ele não era um romântico e não acreditava nessas coisas, mas os primeiros meses, quando ainda se conheciam aos poucos; e depois de tanto tempo e de já terem se conhecido tanto e de verem um no outro aquilo que são em vez do que se tornaram, era de certa forma bonito que ainda fosse possível se sentir assim. Talvez tivesse se tornado um romântico, afinal.

Talvez devesse escrever uma carta.

2013-01-12

Pra começar bem o ano

- Sabe de uma coisa? Isso é um tanto egoísta da minha parte, mas eu estou feliz porque não vou ter que ver você morrer. Eu não aguentaria estar no lugar que você está agora - ele disse, enquanto fechava os olhos e sua mão se desprendia lentamente do aperto da mão do outro, que morreria poucos meses depois sem dizer nada além de "Ele não está mais aqui".

2012-05-27

Tem dias que a vida é um ato de coragem



E se o amor não for suficiente
Eu vou embora
Pra bem longe daqui

*

Não sabia definir o que era a sensação. Sabia que era física; disso tinha certeza. Como se algo – como um instrumento médico - empurrasse o céu da sua boca, mas vindo de dentro do esôfago. Sabia também que já havia sentido isso antes, só não se lembrava quando ou por quê. Seria prenúncio de coisas boas ou ruins? A lógica lhe dizia que só podia ser ruim porque, oras, era alguma coisa que lhe empurrava o céu da boca. Não existem alternativas boas para isso. Mas, por outro lado, não sentia nada de errado. A sensação em si não era ruim. Não era sequer desconfortável. Apenas estava lá, como quando você sente que está vestido, apenas isso.

Levantou-se normalmente às sete, com a vaga consciência de que o outro lado da cama não estava apenas vazio, mas também frio. Foi ao banheiro, se vestiu e tomou café como todos os outros dias. Mas estava sozinho. Tinha uma vaga consciência disso também, exatamente como a sensação na sua boca. Foi trabalhar, como todos os outros dias, só que sem se despedir de ninguém. Voltou às sete, fez um chá, assistiu televisão. Sabia que estava sozinho – sabia também que não era uma coisa ruim, ou tampouco natural, era apenas esperada. Ao abrir o guarda-roupa, tanto de manhã quanto agora, sabia que um dos lados estava vazio. Podia ver. Sabia das coisas que faltavam na casa e sabia, também, que nada sobrava – nem um bilhete, nem nada.

Ele sabia que ela iria embora. Não apenas porque ela tinha dito, mas porque era a única coisa que podia acontecer, como morrer é a única coisa que pode acontecer com certeza quando se está vivo. Ela tinha dito que iria embora se o amor não fosse suficiente, mas já sabia que não seria – ele sempre soube que, na verdade, nada seria. Não a culpava por isso, não lamentava, não choraria – às vezes chove, às vezes faz sol, e isso apenas se aceita. Sempre seria assim com ela também; de qualquer modo, se veriam de novo, sabia disso.

Enquanto isso não acontecesse, ficava aquele molde imaginário de gesso no céu da sua boca; não sufocava, não era desconfortável, não prenunciava más notícias. Apenas estava lá, quando ela não estava.

*

O continho ruim acima é um oferecimento de uma livre interpretação de Se tiver que ser na bala vai, d’As Travessuras da Menina Má (de Mario Vargas Llosa), e da minha falta de imaginação.

Para a Phanie - e para todos, por tabela - porque eu nunca sei se respondendo nos comentários cês vão ver, digo que feliz ou infelizmente o que eu tenho escrito ultimamente não vai ser publicado na internet porque tenho umas intenções serious business para a história, agora que ela finalmente deslanchou. Mas ainda posto e postarei partes sem ordem cronológica e que não necessariamente serão incluídas no original na boa e velha tag do Will e neste tumblr, que está em inglês.

2012-03-22

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte

“...te procuro em outros corpos, juro que um dia eu encontro.”

Ontem eu sonhei com aquele amigo nosso, você sabe. No meu sonho, ele era loucamente apaixonado por mim, e me contava isso. A gente se dava as mãos e corria, corria, fugindo sabe-se lá de que para ficar sozinhos. Eu sonho com muita gente, você sabe, já sonhei contigo também. Acho que já sonhei com todos os meus conhecidos; pra cada um deles, uma história de amor, e eu gosto de sonhar assim porque gosto de me apaixonar. Mas, sabe, esse negócio de amor tem me tirado o sono, no pun intended. É amor pra lá, é amor pra cá, é amor o tempo todo; será que não cansa? Tudo é sobre amor nessa vida. Eu ligo a televisão e tem história de amor, vou ler um livro e tem história de amor, vou ouvir uma música e é sobre amor... Veja você que não é que eu não goste de ouvir falar de amor; eu até que gosto, mas eu vejo e leio e ouço essas coisas e não sei de onde é que elas vêm. Mas eu queria saber. Queria amar desse jeito que eles falam que existe, desse jeito que ensinaram a gente. Porque quando eu sonho, eu amo assim. Olha que engraçado, eu li em algum lugar que, por mais que pareça ser mais, a gente nunca passa mais do que cinco minutos sonhando. Não sei se é verdade, mas vá, é bonito: todo sonho dura só cinco minutos, e nesses cinco minutos eu já vivi um monte de histórias de amor. E todas elas foram a primeira vez. Só que o problema é que eu acordo, e quando eu acordo o amor já não existe mais. Será que você consegue entender? Eu queria um amor assim, desses que você precisa ouvir a voz da pessoa todo dia, desses que você precisa saber se ela tá bem, desses que a sua vida se enrola na dela de um jeito que as duas viram uma só. Tô aceitando um amor simples, tô aceitando um amor épico – How can I live without my life? How can I live without my soul? Te juro que tô surpreso por essa citação não ter dado o ar da sua graça nos meus sonhos ainda -, tô aceitando amor. Tô aceitando alguém que me ensine. Às vezes eu acho que vocês, que aparecem nos meus sonhos, são sempre a mesma pessoa. Espera, eu te explico. É sempre uma pessoa diferente, mas é sempre o mesmo conceito. Eu me apaixono é pela ideia de me apaixonar, sabe como é? Meio bonito, mas meio triste. Eu sempre tenho dificuldade em decidir se alguma coisa é bonita ou triste, sempre quero ficar com os dois. Eu fico pensando... Será que um dia eu vou amar? Amar assim, desse jeito que eu falei. E aí um dia eu vou virar pra pessoa e dizer “porra, era isso mesmo, eu sonhei com esse amor”, e ela vai achar bonito, sem saber que eu tava só sendo literal mesmo. Mas às vezes eu não acho ruim, sabe. Eu tô aqui falando e falando e não sei nem te dizer quantas vezes eu falei a palavra “amor”, mas a verdade é que às vezes eu nem me preocupo tanto. Mas é que tem dias, assim, que nem esse, em que parece que it’s all about love. Daí eu penso, assim, comigo mesmo: vai fumar, vai trepar, vai aguar uma planta que isso passa. Se passar, tudo bem, no outro dia eu durmo e amo outra pessoa, e a vida continua. Se não passar, aí eu fico tagarelando assim contigo, me lamento pela não existência do amor na minha vida, no outro dia eu durmo e amo outra pessoa. Então é isso, acho que eu vou ali dormir, que isso passa. Mas fica aí o meu pedido, ficam aí os meus versos do dia seguinte que de versos não têm nada. Acho que nem tô pedindo muito; tanta gente pedindo coisa escrota por aí. Um dia, quem sabe, talvez, eu venha a amar, e aí eu te conto como foi. 

2012-01-05

Outubro, 1997

- Você me amou?

Ouvi a pergunta e continuei lavando as mãos normalmente, mas minha mente parou no meio do ato. Amor não era exatamente meu tópico de conversação preferido; pra falar a verdade, estava bem no topo da lista de assuntos que eu passei a vida toda evitando.

E agora isso.

Enxuguei as mãos e saí do banheiro. Ele ainda estava sentado ali, esperando a minha resposta. Tinha perguntado se eu amei, não se eu amo, e só esse detalhe me fez perceber, mais uma vez, que o tempo tinha passado. Eu não podia culpá-lo por talvez ainda me ver do jeito que eu era antes, porque eu também fazia isso. Só em alguns momentos – como esse – eu percebia que o tempo tinha passado pra ele também.

- Amei. Mas eu tenho certeza de que te disse isso na época.

- Mas talvez agora você ache que foi coisa de adolescente.

- E foi mesmo, mas isso não é de todo ruim, é? O amor aos dezesseis anos também tem lá a sua beleza.

- Não estou desmerecendo isso... Mas é que talvez você não tivesse certeza.

- Eu não tinha. Acho que essa é a graça das coisas de adolescente: a gente não tem certeza de nada, mas se entrega como se tivesse. Mas sabe o que eu nunca entendi?

- O quê?

- Como você me amou esse tempo todo. Não o porquê, que isso eu já desisti de entender e não importa tanto assim. Mas como? Às vezes eu penso até que não é possível, pra falar a verdade. Eu não sou exatamente o melhor tipo de pessoa pra se amar.

- Se você tivesse me dito isso há uns quinze anos, eu chamaria de drama. O problema é que é verdade, mas o que eu posso fazer? A gente se acostuma com tudo.

- Agora sim você tá falando direito. Toda aquela história de por que e talvez e se isso e aquilo outro não faz o seu tipo.

- Faz o seu.

- É, faz. Mas você anda estranho mesmo, perguntando coisas...

- É que às vezes eu canso, Will... Eu tento me colocar no seu lugar, juro que tento. Mas acho que cheguei numa hora em que não consigo ser mais nada além de egoísta.

Não pude evitar um sorriso.

- Se você soubesse como eu tenho vergonha de tudo que eu te fiz, que falei, que escrevi... E eu só queria isso, sabe? Esse tempo todo eu só não conseguia suportar essa... essa nobreza infeliz que você insiste em ter. Essa coisa de me querer feliz. Eu te provocava porque queria que você me desse uma rasteira, que entrasse na minha casa de noite gritando, que fizesse qualquer coisa. Mas não. Você é padrinho do meu filho, foi no meu casamento, respondeu minhas cartas, ficou no hospital quando eu tava internado. Você frequenta a porra da minha casa. Nós somos amigos. Me diz como foi que isso aconteceu? Porque eu fico olhando e não entendo, porque não faz sentido nenhum.

Ele não disse nada, é claro. Nunca dizia, porque sempre sabia que em pouco tempo eu ia me calar e me arrepender de tudo que falei. Mas eu não podia deixar de pensar que, talvez pela primeira vez em muitos anos, estávamos começando a sair do lugar.

2011-09-06

Porque tem que começar em algum lugar

Veja você. 

Veja você que.


Começa assim, sempre. Veja você que, e alguma coisa que ele imaginava ser um comentário muito inteligente, mas eles sempre vêm com eu achava que essa cerveja ia ser pior. Ou veja você que eles realmente capricham nisso aqui. E no fim das contas eles são apenas mais algumas vozes entre aquelas tantas que estão falando de provas, de algoritmos, de aulas, de namorados, de cigarros, de bebidas, de ruas, de carros, de putas, da vida. De Kant. Eles falam de Kant. Isso definitivamente é o tipo de coisa que se destaca entre aquelas vozes todas se sobrepondo, ou talvez seja apenas porque ele quer que seja assim. Quer que seja assim enquanto carrega essas bandejas todas, quer apenas poder focar sua atenção num ponto só, numa conversa só. Dá pra aprender a fazer isso depois de tanto tempo andando entre as pessoas. Ele não se incomoda em ser invisível, existe toda uma arte em ser invisível, imagina como as coisas seriam tristes e ridículas se a todo momento o parassem no meio do caminho, bandeja na mão, pra perguntar como está indo a sua vida. Não dá.

Mas veja você que as pessoas estão ali, como sempre estiveram desde que ele se entende por garçom, e de repente ele se põe a perguntar por que diabos não tinha reparado nelas antes. Ele sabe, é claro. É só que é estranho, bom, talvez estranho não seja a palavra, mas é definitivamente curioso como as coisas acontecem. Como algumas pessoas simplesmente surgem assim, como se só existissem a partir do momento em que você se dá conta delas. Existe uma teoria pra isso, um nome, e você imagina que, veja só a ironia da vida, quem deve saber dessas coisas são justamente essas pessoas aí, tomando cerveja, reclamando do som ou da ausência dele, falando sobre a vida; deles e dos outros.

O nome desse ele que tanto se repete é Sérgio, sua ocupação, como se sabe, é a de garçom, o que lhe aflige as ideias agora, como se sabe, são os fregueses. São sempre eles. O então agora nomeado Sérgio, com todas as duas devidas consoantes e vogais, aproveita uma pausa para respirar do lado de fora do bar. O mês é junho, seu preferido, mas já é noite, quase madrugada, e ele prefere as tardinhas. Do lado de fora – se é que se pode chamar assim, com tanta importância, já que ele estava a apenas alguns passos da porta – o ar era claramente mais respirável, mas ele não podia negar que até que gostava daquele cheiro constante de cigarro e bebida e perfume e pessoas demais num lugar pequeno. Soava meio poético, uma poesia meio crua, é verdade, mas ainda assim. Era denso, e ele gostava de coisas densas.

Falando em densidade, lá do começo da rua, se não lhe enganavam os olhos, vinha Lenita. Vinha sozinha, com alguma coisa no braço, certamente um livro, talvez uma pasta a mais, a bolsa enorme a tiracolo, aquele rebolado característico, meio natural, meio sem querer. Sérgio fez as contas; faziam dois anos agora. Então lembrou que não estavam mais juntos havia coisa de um mês e se repreendeu por isso. Não é assim que se faz, ele pensou, não é bem como se desse pra esquecer. Antes que terminasse de pensar ela chegou, sorriu aquele sorriso que não chega aos olhos, o que era uma pena, porque ele realmente gostava de quando os olhos dela sorriam, e parou por alguns segundos na sua frente, talvez esperando que puxasse assunto. Não puxou, um momento constrangedor, ela entrou, ele acabou entrando depois. Não é assim que se faz, ele pensou de novo, enquanto ela se afastava para o fundo do bar, desajeitada, sem saber se quem tinha feito besteira havia sido ela ou ele.

Veja você que.

Começa mais alguém em alguma outra mesa e no mesmo momento aquele assovio de sempre corta o ar até seus ouvidos; preferia os assovios a “ei! EI!”, tinha até passado algum tempo catalogando mentalmente os diferentes tipos: os engraçadinhos, os despreocupados, os apressados, os que ainda precisavam de treino. Foi buscar os pedidos no balcão evitando olhar para o lado onde ela havia se sentado, evitando sequer pensar nisso, o que era impossível, claro. Não é assim que se faz, pensou uma terceira vez. Em tese, ele deveria estar feliz, mas não era exatamente esse o sentimento. O fim do namoro parecia mais um luto do que qualquer outra coisa, uma fase de adaptação, de desapego, ou seja, lá que nome se dê. Olhava pra Lenita e repensava se não estava mesmo fazendo uma escolha errada, se realmente não tinha mais jeito mesmo, se era tão horrível assim como ele pintava, se ela estaria falando dele agora, que ela tinha um nome tão bonito, um nome de personagem de conto e e e. Levou as bebidas, os tira-gostos, os pensamentos, tudo. Olhou o relógio, ainda não era nem meia-noite, suspirou. Ela estava com algumas amigas, e elas riam alto. Elas, não ela. É de propósito, ele pensou, estão rindo de mim; e ela ainda está naquela fase de olhar pro lado e pensar se deveria rir ou não, se deveria se sentir bem ou não, porque afinal é um luto, como ele já havia percebido.

Dez para a meia-noite e contando. 

2011-07-05

I'll be there as soon as I can

but i'm busy
mending broken
pieces of the life i had before

*


Quando eu olho pra você agora, Will, eu vejo um homem quebrado. Parece que você já levou tanta porrada da vida que finalmente está começando a se dobrar. Eu vejo um homem duro e amargo e, não me leve a mal, mas a amargura até que lhe cai bem. Acho até que talvez ela sempre estivesse aí, disfarçada de algum tipo de conformismo. É complicado, e eu não falo por mal, mas eu vejo você com os cabelos ficando grisalhos e essa relutância em sorrir de novo e só consigo pensar em como isso é, de certa forma, coerente. Era pra acontecer. Acho que você é uma daquelas pessoas que pensa que não nasceu pra viver mais de trinta anos, e de repente se surpreende quando vê que viveu, sim. Entenda, não é uma questão de envelhecer; nunca foi. É uma questão de tempo, pura e simplesmente. Você pensou que não tinha tempo, e quando viu que tinha não soube o que fazer com ele. É por isso que eu fico triste, Will, quando vejo você quebrando assim. Eu me lembro de você jovem, bonito e impaciente, e dos seus olhos, que nunca mudaram; talvez estejam apenas um pouco mais pesados, porque a gente vê coisas demais nessa vida. Quando você pensa que não tem ninguém olhando, ou simplesmente se distrai, eu vejo um Will menos cansado, um sorrisinho inconsciente, e algumas lembranças que eu também tenho. Só que tudo em você parece dizer que o nosso tempo já passou, e eu quase posso ver você se repetindo isso e aos poucos ir acreditando. É triste, mas é uma daquelas tristezas que a gente sabe que têm que acontecer, porque é aquela que chega quando as coisas começam a chegar ao fim. E existem poucas coisas mais tristes e bonitas nessa vida do que entender que tudo sempre tem um fim.

2011-03-06

We laugh and sing and dance together

(um dia resolvi escrever sobre o amor no ponto de vista de cada personagem que eu tinha. no final só consegui fazer o do Will.)

*

Eu já não sei bem o que pensar sobre o amor a essa altura da vida. Quando a gente olha pra trás, é até fácil achar uns exemplos de momentos em que estivemos apaixonados, mas a gente nunca percebe essas coisas em tempo real. E geralmente quando percebe é porque já não é bem assim. Eu também já não sou mais um tipo romântico; se bem que acho que, na medida do possível, eu nunca fui realmente um. Mas, se é pra fazer uma avaliação do passado, então está bem: eu amei. E amei como dizem que os adolescentes amam, com toda aquela entrega total e liberdade que fica impossível de reproduzir depois de um certo tempo. Mas não sei dizer se amo agora, no tempo presente. É difícil dizer quando já não se sabe mais como ou o quê sentir. Não é que meu coração tenha secado, mas ele certamente endureceu um pouco. Isso acontece com todo mundo, mais cedo ou mais tarde, não é? Mas, então, voltando ao que eu estava falando, eu já não sei mais como amar hoje em dia. Não é como se eu pudesse - ou conseguisse - de repente acordar com o coração de um garoto de dezesseis anos. Não qualquer garoto, mas o que eu fui. Mas eu ainda percebo o amor nos outros; percebo os olhares, os gestos, os toques, e fico pensando se não foi sempre assim, e eu é que enxergava de um jeito diferente. Talvez, embora eu não perceba o meu próprio amor, ele o sinta como eu sinto o dele.

2011-01-27

Remember when you were young

...you shone like the sun

*

No dia em que você entender eu tô salva, ela disse e foi embora, simples assim. Simples como quem pega uma bolsa e sai, como quem dá sinal para um ônibus e entra, como quem joga uma pedra no lago e dá as costas a ele. Mas não importa, realmente nunca importava. Entender é um ato secundário, algo que você nem sempre se lembra de fazer. O que importa agora são os acordes, aqueles acordes, que você descobriu por acaso quando todo mundo meio que já nasce sabendo. Mas uma hora a música acaba, ela sempre acaba, as pessoas sempre se viram e vão embora e você já não está muito certa se está falando da música ou dela. Seja quem for, vão embora, e as coisas deixam de ser bonitas e as cores mais simples voltam a ser apenas as cores mais simples, logo agora que você tinha aprendido a olhar pra elas. E agora, José, mas é fácil, sempre é muito fácil, já não se precisa mais levantar e trocar o lado do disco, agora é só apertar um botão. E agora, José, mas você não aperta. É estranho isso, de não fazer o que se quer fazer. Você pensa que o que falta nessa vida é serotonina, mas veja só, você ainda pensa, quem precisava saber desse negócio de serotonina antigamente? Só era feliz e pronto, havia um nome só. Você aperta o botão, finalmente, e a mágica é essa, fazer o mundo desaparecer e criar um novo, só seu, e quem sabe você chame ela, com os erros de português e tudo o mais. Quem sabe você entenda, ou talvez nem precise mais entender. O difícil nessa vida é chegar na hora certa, o resto se arranja. Você se imagina chegando no mundo cinco minutos mais cedo e cinco minutos mais tarde e pensa o que isso ia mudar antes de se perceber já um tanto louca. É a loucura que faz isso com a gente, você pensa, e se ela estivesse aí perguntaria o quê, e você responderia que é a vida, é a loucura que faz a gente viver, e ela riria e diria que você é um clichê ambulante, ah sim, você é, só te falta uma banheira, umas velas e uma taça de vinho barato. Quem sabe você pinte as unhas de vermelho pra declamar essas frases feitas, isso é o que ela diria, e quem se importa. É assim que as coisas são. A música está pra acabar mais uma vez e te dá um desespero, um desespero real, palpável, de não ter mais aqueles acordes te puxando pra cima quando você deveria estar caindo. Mas a música acaba e ela entra, veja ironia, você é o clichê ambulante e é ela quem entra numa pausa dramática. Deixa pra lá, ela disse.

2010-12-18

A paixão segundo Soledad


Queria conseguir pensar em outra coisa que não fossem os ombros de Dulce, os olhos de Dulce, a pele de Dulce. Não podia. Desejou que os vestiários da escola não existissem, ou que as garotas não tivessem o despudor estúpido de se despirem na frente umas das outras. Desejou que pudesse apagar da memória o momento em que Dulce se abaixava para enxugar os pés apoiados no banco, os seios pequenos de encontro às coxas, o cabelo preto que mesmo comprido não escondia nada. Não podia deixar de imaginar o quanto a pele morena dela deveria ser macia,ou o quanto conseguiria se perder na sua boca. Desejou ter os cabelos ainda mais curtos do que já estavam, os ombros mais largos, uns centímetros a mais de altura. Voltou a nadar apenas para poder olhar para Dulce na água e imaginar o toque da cintura marcada pelo maiô.

Soledad de los Reyes praticamente desconhecia a existência de Granermano, e o fato de que ele também tinha uma expressão no lugar do nome; isso, porém, era o menor dos seus problemas. Soledad nutria pelo seu nome uma espécie de respeito pelo fato de ele ser tão adequado à ela. 

Era adequado quando as outras garotas fechavam as portas do boxes quando percebiam as sua presença, mais por zombaria do que por realmente acreditarem que ela as olharia. Era adequado quando ria ante da ironia que era um dia - há muito tempo - terem lhe chamado de Sol. Era adequado quando lhe jogaram sutiãs na cara, e quando entreabria o próprio boxe para o despudor de Dulce.

(continua e tal)

2010-12-13

A paixão segundo G.H.

Granermano Cortez tinha dezessete anos e a certeza de que seu nome era uma piada de mau gosto. Era até complicado colocá-lo junto da palavra "grande" em uma mesma frase. Ele já havia se perguntado por que diabos resolveram lhe chamar assim, mas sua mãe apenas dizia que ele não deveria ser ingrato e achar ruim um nome que inspirava amor. Granermano, no entanto, achava que a única explicação plausível seria a de que os seus pais perderam uma aposta na faculdade ou algo assim, e então arranjaram a desculpa do amor.

Na verdade, até onde sabia, seu nome nunca tinha inspirado amor em ninguém. Se chamar Granermano nunca havia feito com que alguém automaticamente pensasse que ele deveria ser um grande cara legal ou algo assim. Já haviam lhe dado todo tipo de apelidos possíveis, dentre os quais os mais aceitáveis eram Gran, Hermano, Pequeño e ainda Big Brother para os mais engraçadinhos. Os amigos costumavam chamá-lo de Gran Hermano, devidamente - e enfaticamente - separado, mas depois essa variação acabou diminuindo para G.H. e assim ficou. Granermano até gostaria de se chamar Gêagá, se a grafia não fosse ainda mais absurda que a do seu nome original. 

Granermano Cortez, no entanto, estava agora ocupado demais para pensar nas variações do seu nome. Sempre passava alguns momentos do dia ocupado olhando - ou procurando olhar - para Soledad. Ela, tão pequena que o mundo poderia perdê-la em suas voltas, era quem morava nos sonhos de G.H. Ela, em quem os traços finos contradiziam os cabelos mais curtos ainda que os dele e as camisas de flanela, em quem o nome era uma sentença inversamente proporcional à dele. Ela, que o desconcertava com uma languidez masculina que ele não saberia dizer se era, na verdade, uma masculinidade lânguida, ou se nenhuma das expressões fazia sentido.

(continua e tal)

2010-10-27

Maybe I'm too young to keep good love from going wrong

Não sei o que é que o mês de outubro tem que o faz ser tão... bizarro pra mim. Coincidência ou não, é sempre em outubro que eu fico 

a) deprimida
b) muito feliz
c) alternando estados entre a e b

atualmente estou no c.

E isso me faz escrever como uma louca.

.x.

VI
(I, II, III, IV, V)

all my blood for the sweetness of her laughter

Eu olho pra você e tenho medo, muito medo. De destruir tudo, como eu sempre faço. Você olha pra mim e vê uma pessoa doce e incapaz de fazer mal a uma mosca, eu me olho no espelho e vejo que não é bem assim. Você sabe que há quem ache que eu sou a pior pessoa do mundo e não entende como isso pode acontecer, eu acho que eles estão certos. Não é que eu seja falsa, o problema é exatamente o contrário, não consigo deixar de ser eu mesma nem pra salvar a minha vida. Não sei dar meio-termos, tudo é ódio ou amor, sangue ou riso, branco ou preto, e nessa contradição viro uma aquarela de tons de cinza. Amo a vida e acordo pensando que vou morrer, que não posso morrer, que ainda não vivi o suficiente, que ainda não te vi o suficiente. Meu ódio é uma extensão do meu amor; amor do qual eu falo tanto e nem sei amar, nem poeta eu sou. Não sou ninguém, ninguém me ama, nem amará, não mereço nada, e é tudo drama e você sabe. Quero atenção. Quero um colo e não querer nunca mais sair dele, e quando o tenho não o suporto mais. Quero que você saiba o quanto eu me importo com você, com tudo e com todos, mas que no final das contas também me importo comigo. Quero que você guarde muito bem, com todos os cuidados do mundo, o que tivermos de melhor, porque se eu tiver uma oportunidade vou estragar tudo. Quero que você saiba que a rapidez com a qual eu amo e deixo de amar não significa que não tenha sido importante, quero que você saiba que pra mim é tudo tão intenso que é como se eu tivesse te amado a minha vida toda. Quero que, no fim, se houver um fim, quando tudo o que restar for algumas cartas e fragmentos de nós dois, você saiba que eu fui sua, completamente sua, seja por três minutos, seja por três anos.   

2010-10-05

I'm Jack's broken heart


Comecei a escrever isso há alguns dias, mas só consegui terminar hoje. Atrasos à parte, esse texto é para a Katherine (aka Júlia) - tenho problemas em associar nicks a nomes, oi - que fez aniversário ontem. Espero que tu goste.


(só um devaneio: eu acredito que pessoas que ganham histórias são muito especiais e essa, obviamente, não deve ter sido a única que tu ganhou ou ganhará. afinal, escrever é o que temos de mais íntimo e querido, e estas setecentas e poucas palavras são pedacinhos de mim, e por extensão de mais um monte de gente. somos todos uns corações partidos, afinal, mas esse nem sempre é o lado triste, não é?)

*

As pessoas – especialmente as mulheres – costumavam lhe dizer que homens não sofrem por amor. Você não sabia exatamente no que acreditar, porque, bem, elas diziam isso e logo depois estavam suspirando pelos dilemas amorosos dos galãs das novelas. Aconteceu com essa definição o mesmo que aconteceria com todas as outras que lhe deram; devagar, quase sempre tortuosamente, você escolheria o que era verdade e o que não era, e isso é sempre tão arriscado. Mas você sempre acaba se sentindo orgulhoso por quebrar a cara pelos seus próprios erros.


(ah, sim. a maior liberdade de todas, poder errar por si)

Mas lá estava ele, a despeito de todas as definições. Você, é claro, já não era mais nenhum garotinho e sabia que sofrer por amor não era exclusividade das mulheres. Você mesmo já tinha passado por isso, mas ao mesmo tempo em que essa deveria ser a prova de que precisava, também lhe fazia pensar se você apenas não passava de um romântico.

Você sempre notou que as pessoas também costumam enfatizar essa palavra, de duas maneiras bem específicas. Havia quem dissesse romântico com um suspiro de identificação e quem dissesse com um bufo de desdém. Você estava bem no meio dessas pessoas, sem saber se deveria ser cético ou sorrir. Ou os dois ao mesmo tempo.

(era tão mais fácil quando os erros eram dos outros, não era? ter culpa – ou melhor, saber-se culpado – lhe trazia uma espécie de prazer um tanto mórbido e especialmente egoísta; não precisar de ninguém para errar, saber que o que dá certo ou errado – especialmente o que dá errado – é conseqüência dos seus atos. ninguém lhe disse que ia ser fácil, você também não esperava que fosse, e então aqui estamos.)

Lá estava ele, afinal, sentado no banco do metrô, olhando ora para as próprias mãos, ora para a janela à sua frente. Você nunca gostou desses bancos virados para o lado oposto do vagão, porque eles obrigavam as pessoas a olharem umas pras outras e ninguém se sente confortável em fazer isso hoje em dia. Até olhar para frente exigia todo um complicado ritual cujo objetivo era conseguir fazer de forma convincente a cara de não-estou-olhando-pra-você-estou-interessado-apenas-na-janela. A janela que, na verdade, geralmente não tinha nada especial que despertasse o interesse, mas estava ali para que as pessoas pudessem olhar para qualquer coisa.

O fato é que os olhos sempre são atraídos por alguém ou por alguma coisa, especialmente os seus. Você não consegue parar de procurar algo pra olhar, e naquele dia você o viu. Naquele dia você não se arrependeu de ter sentado de frente para outro banco, porque podia fingir estar olhando para a janela e na verdade olhar para ele.

(just another Jack)

Você cantarolou mentalmente o verso da música que provavelmente nem existia.

Jack, o homem do metrô, também tinha os olhos inquietos. Paravam em vários outros lugares no caminho que faziam das mãos para a janela e da janela para as mãos. Jack tinha os olhos úmidos de quem está constantemente prestes a chorar, e não parecia patético por isso.

(just another Jack) 

Jack tinha muitas coisas interessantes que fariam você olhar para ele, mas tinha uma coisa em particular pela qual você não tiraria os olhos dele e ao mesmo tempo gostaria de desviá-los.

(I’m not just another Jack)

Jack tinha um coração partido.

Exatamente como o seu.

Partido pelo simples fato de não conseguir segurar tanto amor dentro de si.

(I’m not just another Jack)

Lá estavam vocês, um de cada lado de um vagão cujas luzes piscavam e estalavam de quando em quando, não conhecendo nada mais do que alguns momentos da vida um do outro, transbordando de amor e não tendo onde colocá-lo.

Você queria sentar ao lado de Jack e lhe contar um segredo. Queria contar para ele que você também não sabia onde colocar todo esse amor, mas que isso não era ruim. Queria contar para ele que seus corações partidos batiam por um motivo.

(can you hear it? that’s the sound of my love beating)

Você queria dizer para ele que esse amor foi feito para transbordar.

(bleeding)

Que ele é exatamente como os seus olhos inquietos.

(exploding)

Que ele não pára em um lugar só por muito tempo, mas quando o faz é com tanta intensidade que chega a doer.

(soaking)

Você sorri para Jack e seus inquietos olhos úmidos. Ele sorri de volta e olha para as próprias mãos. Ele sabe.

E, mesmo assim, você gostaria de apenas lhe dizer que quem quer que tenha lhes dado aqueles corações partidos fez um bom trabalho.

(I’m Jack’s broken heart)

2010-08-19

Meias palavras (sem um bom entendedor)

V
(I, II, III, IV)


Não é nada pessoal, mas você não suporta mais estar com ele. Na verdade, "não é nada pessoal" é apenas uma expressão que você usa para tentar não ofender, mas que não significa nada. Sempre é tudo pessoal, até demais. E as pessoas sempre se ofendem. Principalmente quando não têm motivos concretos pra isso.

Você pensa que está sendo dura demais, e que tudo acaba passando um dia. Só que esse bendito dia não chega nunca; todos os dias parecem ser sempre a cópia um do outro. As coisas não mudam e você sabe que está parada no mesmo lugar, exatamente do jeito que tinha decidido não estar. E, à noite, quando a boa e velha insônia senta ao seu lado e acende um cigarro, você tenta não cair em mais um abismo de auto-piedade. E o sol começa a nascer e você pensa "vamos começar de novo, agora vai dar certo", apenas para que, menos de doze horas depois, você fique pensando o que diabos tinha na sua cabeça para pensar que poderia dar certo.

Ele está lá, do seu lado, e você se sente um tanto culpada por achar ruim algo que começou tão bem. Mas você não pode evitar. Tédio, tédio, tédio. Nenhuma perspectiva. O loop infinito dos dias. E o pior é que ele continua ali, como se não estivesse percebendo nada. Na verdade, o pior mesmo é que isso não é uma possibilidade, mas um fato: ele realmente não percebe nada.

Você ouve na sua cabeça todas as pessoas e todos os momentos em que teve o seu egoísmo jogado na cara. Você acha que deve se sentir culpada por ser assim, e acaba se sentindo culpada por não se sentir culpada. Você queria ter um pouco mais de força de vontade, queria ter entendido melhor os sinais, queria ter ouvido o que os outros tinham a lhe dizer, queria ter simplesmente conseguido dizer "não" por vezes o suficiente para ser completamente entendida.

Você então começa a sentir que não vai acabar nunca, mas não é mais naquele sentido romântico e bonito. É mais uma sensação de que tem algo se enroscando em você e que não vai te deixar sair. Você pensa no que era a sua vida antes, e vê que já se acostumou com isso. O ser humano se adapta às piores situações, é o que dizem. Você se adaptou, mas não queria; como uma pessoa que de repente tem que morar num lugar muito mais frio do que antes. Você pensa sempre no que poderia não estar fazendo, no que poderia não estar tendo obrigação de fazer, pensa em como era a vida quando tudo não parecia ainda com uma obrigação que leva a um objetivo definido que agora você acha nojento. Talvez nojento seja uma palavra muito forte, ou talvez seja apenas você não querendo ofender de novo. Você pensa em como as coisas chegaram a esse ponto.

As pessoas olham para vocês e provavelmente também não percebem. Está tudo muito bem, visto de fora e, pensando bem, se você fechar os olhos e esperar acabar, até dá pra fingir que você também está achando tudo ótimo. E então você se dá conta do que acabou de pensar e o nojo se volta contra você, que está aí prostituindo seus sentimentos por alguns momentos de paz. Por alguns poucos e valiosos momentos em que ele não está lá. E você tem medo, afinal, de tudo isso.

E apesar de tudo isso, você ainda não quer magoar ninguém. Você só quer uma vida diferente. Se vai ser melhor ou pior, você não sabe, só quer que não seja sempre igual. Você está sempre esperando que ele milagrosamente se apaixone por uma outra pessoa, ou que fique com raiva o suficiente de você para não querer mais vê-la. Ou, na melhor da hipóteses, você só quer que vocês voltem a ser amigos, como nunca deveriam deixar de ter sido. Mas, é claro, não te parece que ele vá conseguir entender esse conceito de amizade em particular. Na verdade, o que parece é que ele nunca entende nada do que você diz. Não por burrice ou falta de vontade, mas simplesmente porque há um abismo entre vocês.

Ele, por exemplo, nunca vai entender o quanto te ofendeu, muito menos que isso não tem nada a ver com xingamentos explícitos. Ele nunca vai entender o que se quebrou, porque quebrou em você, e ele não pode sentir. Ele nunca vai entender que você nunca esqueceu não porque é vingativa e cruel, mas sim porque está irreversivelmente magoada. Ele nunca vai entender que outras pessoas não têm nada a ver com isso. Ele nunca vai entender que todo o problema é uma via de duas mãos, e que quando você diz "a culpa não é só sua" você não está tentando não ofender. Está apenas sendo sincera.

Mas, enfim, não tem conserto, mas você não acha que ele vá entender.

2010-05-29

A friend is not a lover

III
(I, II)

Você falava.

Falava e eu ouvia, com um sorriso torto, sobre a nova mulher da sua vida.

(ou, pelas minhas contas, a terceira dos últimos seis meses.)

Você falava e eu ficava pensando em nós dois.

(e você não tinha como saber que era por isso que eu sorria, e assim eu acabava sorrindo mais ainda.)

Eu ficava me lembrando de quando matávamos aula e ficávamos perto daquela árvore enorme. Acho que você não se lembrava mais dela. Mas talvez lembrasse que ficávamos abraçados lá.

(talvez eu pudesse estimar também quantas vezes nos abraçamos, mas até isso seria demais agora, já que nós sempre estávamos abraçados.)

Eu ficava me lembrando de quando acordava na sua casa e ia fazer um café pra nós dois. De como você passava por mim na cozinha e beijava o meu ombro sem maiores intenções.

(ou de quando você acordava na minha casa, e se levantava para fazer o café – era ruim, e eu inevitavelmente tinha que fazer outro.)

Você falava de como ela era bonita.

Eu ficava me lembrando de quantas vezes você me disse isso. Talvez não tenham sido tantas, mas, por um momento, me permiti ficar feliz por você já ter dito isso pra mim mais vezes do que pra elas.

(e eu a vi, alguns dias depois – era realmente bonita, mas eu esperava mais.)

Falava que dessa vez poderia dar certo. Eu concordei, é claro. Pra você, sempre dá certo, mesmo que acabe.

(eu adorava a janela enorme da sua casa, principalmente quando você ficava lá comigo, olhando a cidade.)

Você ainda está falando dela, e eu fico feliz porque você pode fazer isso. Porque eu posso te ouvir e concordar. Porque eu posso andar na sua cozinha e fazer o café como se estivesse na minha casa. Porque não nos olhamos como estranhos quando acordamos de manhã na mesma cama.

(e, ainda por um momento, penso em como seria se eu fosse a única – decido, então, que não importa.)

Continue falando, eu vou ouvir.

2010-04-11

Color my life (with the chaos of trouble)

 II
(não tem a ver com o I, exatamente)

Havia, é claro, duas pessoas. Havia, sim, nos olhos dele uma cor que não era a da íris, uma que não se define por já ter sido vista, mas sim por já ter sido sentida. Havia nele aquela cor que emana dos que vivem - dos que realmente e sinceramente vivem - e portanto não era uma cor que se sentisse todos os dias, ou em todas as pessoas. Havia, é verdade, no outro ele uma cor diferente, que também não era daquelas com as quais se costuma definir as coisas visíveis, mas sim uma cor mais calma. Havia nesse outro ele um tom mais pálido da cor do primeiro; não era a dos que vivem, tampouco a dos que morrem, mas sim a dos que conseguem. Viver talvez fosse restrito demais para os que conseguem. Conseguir talvez fosse pedir demais para os que vivem.

Havia, é claro, duas pessoas. Havia, sim, a mistura dos matizes quando os olhos se fechavam e as cores fluíam para as bocas. Havia o reconhecimento de que foram separadas um dia, as cores, e também o desejo de se unirem novamente. Havia, é verdade, a hipocrisia de cada um em dizer que aquela era a última vez. Havia o momento - pequeno, trêmulo, obscuro - em que a separação tornava a acontecer, e era como um parto, como aquele mesmo parto em que - em épocas diferentes, porém da mesma fonte - vieram as duas cores, as duas pessoas, a mistura única. Terminar de viver, afinal, foi o que ele conseguiu. Continuar conseguindo, afinal, foi tudo o que o outro viveu.

2010-04-07

Enjoy the silence

I

Talvez tenham sido os teus olhos.

Ele disse, e aquela foi a última coisa. Ela gostaria de ter entendido, mas para entender teria que lembrar, e para lembrar teria que amá-lo, e já não amava mais. E aquele instante passou, leve como uma pena que cai na água e não faz ondas, leve como os sorrisos não trocados e as palavras não ditas, leve como as coisas que já não existem mais. Naquele instante, ela o amou, amou muito, mais do que tudo, mais do que a si mesma, mas o momento já havia passado e ela chorou, porque não poderia mais entender.

Talvez tenham sido, sim, os teus olhos. Ele gostaria de ter podido dizer até o fim, pois sabia que ela não iria lembrar. Porque eram eles que viam, que choravam, que sorriam. Apaixonei-me pelos teus olhos antes de tudo, antes de apaixonar-me pelas tuas mãos, pelos teus sorrisos raros, pelos teus suspiros no meu ombro. Mas ele não pôde dizer, e ela não pôde lembrar. O instante, que lhes era a vida inteira, acabou.