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2010-12-18

A paixão segundo Soledad


Queria conseguir pensar em outra coisa que não fossem os ombros de Dulce, os olhos de Dulce, a pele de Dulce. Não podia. Desejou que os vestiários da escola não existissem, ou que as garotas não tivessem o despudor estúpido de se despirem na frente umas das outras. Desejou que pudesse apagar da memória o momento em que Dulce se abaixava para enxugar os pés apoiados no banco, os seios pequenos de encontro às coxas, o cabelo preto que mesmo comprido não escondia nada. Não podia deixar de imaginar o quanto a pele morena dela deveria ser macia,ou o quanto conseguiria se perder na sua boca. Desejou ter os cabelos ainda mais curtos do que já estavam, os ombros mais largos, uns centímetros a mais de altura. Voltou a nadar apenas para poder olhar para Dulce na água e imaginar o toque da cintura marcada pelo maiô.

Soledad de los Reyes praticamente desconhecia a existência de Granermano, e o fato de que ele também tinha uma expressão no lugar do nome; isso, porém, era o menor dos seus problemas. Soledad nutria pelo seu nome uma espécie de respeito pelo fato de ele ser tão adequado à ela. 

Era adequado quando as outras garotas fechavam as portas do boxes quando percebiam as sua presença, mais por zombaria do que por realmente acreditarem que ela as olharia. Era adequado quando ria ante da ironia que era um dia - há muito tempo - terem lhe chamado de Sol. Era adequado quando lhe jogaram sutiãs na cara, e quando entreabria o próprio boxe para o despudor de Dulce.

(continua e tal)

2010-12-13

A paixão segundo G.H.

Granermano Cortez tinha dezessete anos e a certeza de que seu nome era uma piada de mau gosto. Era até complicado colocá-lo junto da palavra "grande" em uma mesma frase. Ele já havia se perguntado por que diabos resolveram lhe chamar assim, mas sua mãe apenas dizia que ele não deveria ser ingrato e achar ruim um nome que inspirava amor. Granermano, no entanto, achava que a única explicação plausível seria a de que os seus pais perderam uma aposta na faculdade ou algo assim, e então arranjaram a desculpa do amor.

Na verdade, até onde sabia, seu nome nunca tinha inspirado amor em ninguém. Se chamar Granermano nunca havia feito com que alguém automaticamente pensasse que ele deveria ser um grande cara legal ou algo assim. Já haviam lhe dado todo tipo de apelidos possíveis, dentre os quais os mais aceitáveis eram Gran, Hermano, Pequeño e ainda Big Brother para os mais engraçadinhos. Os amigos costumavam chamá-lo de Gran Hermano, devidamente - e enfaticamente - separado, mas depois essa variação acabou diminuindo para G.H. e assim ficou. Granermano até gostaria de se chamar Gêagá, se a grafia não fosse ainda mais absurda que a do seu nome original. 

Granermano Cortez, no entanto, estava agora ocupado demais para pensar nas variações do seu nome. Sempre passava alguns momentos do dia ocupado olhando - ou procurando olhar - para Soledad. Ela, tão pequena que o mundo poderia perdê-la em suas voltas, era quem morava nos sonhos de G.H. Ela, em quem os traços finos contradiziam os cabelos mais curtos ainda que os dele e as camisas de flanela, em quem o nome era uma sentença inversamente proporcional à dele. Ela, que o desconcertava com uma languidez masculina que ele não saberia dizer se era, na verdade, uma masculinidade lânguida, ou se nenhuma das expressões fazia sentido.

(continua e tal)