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2010-10-05

I'm Jack's broken heart


Comecei a escrever isso há alguns dias, mas só consegui terminar hoje. Atrasos à parte, esse texto é para a Katherine (aka Júlia) - tenho problemas em associar nicks a nomes, oi - que fez aniversário ontem. Espero que tu goste.


(só um devaneio: eu acredito que pessoas que ganham histórias são muito especiais e essa, obviamente, não deve ter sido a única que tu ganhou ou ganhará. afinal, escrever é o que temos de mais íntimo e querido, e estas setecentas e poucas palavras são pedacinhos de mim, e por extensão de mais um monte de gente. somos todos uns corações partidos, afinal, mas esse nem sempre é o lado triste, não é?)

*

As pessoas – especialmente as mulheres – costumavam lhe dizer que homens não sofrem por amor. Você não sabia exatamente no que acreditar, porque, bem, elas diziam isso e logo depois estavam suspirando pelos dilemas amorosos dos galãs das novelas. Aconteceu com essa definição o mesmo que aconteceria com todas as outras que lhe deram; devagar, quase sempre tortuosamente, você escolheria o que era verdade e o que não era, e isso é sempre tão arriscado. Mas você sempre acaba se sentindo orgulhoso por quebrar a cara pelos seus próprios erros.


(ah, sim. a maior liberdade de todas, poder errar por si)

Mas lá estava ele, a despeito de todas as definições. Você, é claro, já não era mais nenhum garotinho e sabia que sofrer por amor não era exclusividade das mulheres. Você mesmo já tinha passado por isso, mas ao mesmo tempo em que essa deveria ser a prova de que precisava, também lhe fazia pensar se você apenas não passava de um romântico.

Você sempre notou que as pessoas também costumam enfatizar essa palavra, de duas maneiras bem específicas. Havia quem dissesse romântico com um suspiro de identificação e quem dissesse com um bufo de desdém. Você estava bem no meio dessas pessoas, sem saber se deveria ser cético ou sorrir. Ou os dois ao mesmo tempo.

(era tão mais fácil quando os erros eram dos outros, não era? ter culpa – ou melhor, saber-se culpado – lhe trazia uma espécie de prazer um tanto mórbido e especialmente egoísta; não precisar de ninguém para errar, saber que o que dá certo ou errado – especialmente o que dá errado – é conseqüência dos seus atos. ninguém lhe disse que ia ser fácil, você também não esperava que fosse, e então aqui estamos.)

Lá estava ele, afinal, sentado no banco do metrô, olhando ora para as próprias mãos, ora para a janela à sua frente. Você nunca gostou desses bancos virados para o lado oposto do vagão, porque eles obrigavam as pessoas a olharem umas pras outras e ninguém se sente confortável em fazer isso hoje em dia. Até olhar para frente exigia todo um complicado ritual cujo objetivo era conseguir fazer de forma convincente a cara de não-estou-olhando-pra-você-estou-interessado-apenas-na-janela. A janela que, na verdade, geralmente não tinha nada especial que despertasse o interesse, mas estava ali para que as pessoas pudessem olhar para qualquer coisa.

O fato é que os olhos sempre são atraídos por alguém ou por alguma coisa, especialmente os seus. Você não consegue parar de procurar algo pra olhar, e naquele dia você o viu. Naquele dia você não se arrependeu de ter sentado de frente para outro banco, porque podia fingir estar olhando para a janela e na verdade olhar para ele.

(just another Jack)

Você cantarolou mentalmente o verso da música que provavelmente nem existia.

Jack, o homem do metrô, também tinha os olhos inquietos. Paravam em vários outros lugares no caminho que faziam das mãos para a janela e da janela para as mãos. Jack tinha os olhos úmidos de quem está constantemente prestes a chorar, e não parecia patético por isso.

(just another Jack) 

Jack tinha muitas coisas interessantes que fariam você olhar para ele, mas tinha uma coisa em particular pela qual você não tiraria os olhos dele e ao mesmo tempo gostaria de desviá-los.

(I’m not just another Jack)

Jack tinha um coração partido.

Exatamente como o seu.

Partido pelo simples fato de não conseguir segurar tanto amor dentro de si.

(I’m not just another Jack)

Lá estavam vocês, um de cada lado de um vagão cujas luzes piscavam e estalavam de quando em quando, não conhecendo nada mais do que alguns momentos da vida um do outro, transbordando de amor e não tendo onde colocá-lo.

Você queria sentar ao lado de Jack e lhe contar um segredo. Queria contar para ele que você também não sabia onde colocar todo esse amor, mas que isso não era ruim. Queria contar para ele que seus corações partidos batiam por um motivo.

(can you hear it? that’s the sound of my love beating)

Você queria dizer para ele que esse amor foi feito para transbordar.

(bleeding)

Que ele é exatamente como os seus olhos inquietos.

(exploding)

Que ele não pára em um lugar só por muito tempo, mas quando o faz é com tanta intensidade que chega a doer.

(soaking)

Você sorri para Jack e seus inquietos olhos úmidos. Ele sorri de volta e olha para as próprias mãos. Ele sabe.

E, mesmo assim, você gostaria de apenas lhe dizer que quem quer que tenha lhes dado aqueles corações partidos fez um bom trabalho.

(I’m Jack’s broken heart)

2010-09-19

Tylenol feelings

Hoje eu fui olhar os blogs que eu leio (vejo as atualizações pelos links daqui mesmo) e tomei um susto quando vi que meu último post tinha sido no dia nove, há mais de uma semana. 

Na verdade, acho que faz mais ou menos um mês - mais pra mais do que pra menos - que estou quase que completamente destruída. E isso se reflete na quantidade/qualidade do que eu escrevo. Todo dia, sem exceção, estou mortalmente cansada, com dor nas costas, com sono de dia, sem sono de noite, às vezes com sono de dia e de noite, às vezes acordando de madrugada no meio de um sonho particularmente bizarro. Todos os dias, sem exceção, meus olhos ardem e eu fico pensando se é o lápis de olho ou o óculos e nunca descubro se é, de fato, por causa de um dos dois. Sempre fui incrivelmente esquecida, mas acho que isso está ficando preocupante. Eu esquecia coisas simples, o nome de um livro, o nome de uma pessoa, agora esqueço trabalhos e obrigações. Fico olhando pro teclado por trinta segundos antes de lembrar o que ia digitar. Leio três vezes o mesmo parágrafo. Esqueço o que me disseram há dois minutos. E, puta merda, como meus ombros estão doendo hoje. Daí fica fácil concluir porque não tenho escrito, e isso me deixa triste. Mas, no momento, não tenho forças nem pra ter a vontade de escrever. 

Daí você se pergunta, putz, isso é um blog ou uma ficha de ambulatório? E eu respondo que não sei, mas no momento a segunda opção até que não seria tão má assim.

2010-09-10

Sometimes I feel exactly like that


...e nem precisa ser por algum motivo/acontecimento especial. tem dias que simplesmente começam e terminam sem que você consiga fazer outra coisa na vida além de falar merda. dias como hoje, em que eu penso que não falei nada de útil e que todo mundo vai cansar de mim porque eu sou um saco. às vezes eu avalio a qualidade das minhas relações pela quantidade de vezes em que consigo fazer uma pessoa rir sem estar necessariamente pretendendo isso. hoje não foi um dia muito risível. também não foi um dia ruim. engraçado é que eu costumava contar o tempo por semanas, mas ultimamente tenho feito isso por dias, como as pessoas normais provavelmente fazem. há mais ou menos um mês, se você me perguntasse pelo que eu fiz dia anterior, eu não saberia responder, mas certamente me lembraria do que fiz na semana anterior. terças e quintas não existiam individualmente. a segunda é colada na terça como "o começo da semana", a quarta é o "meio da semana", e a quinta e a sexta são, obviamente, o "final da semana". sábado é um dia feliz, porque não é o final da semana nem domingo. domingo é um dia triste, porque não é um sábado e logo se tornará o começo da semana. atualmente eu sei que hoje é sexta, que ontem foi quinta, e por acaso posso até lembrar do que fiz em cada dia da semana. bizarro. é como viver em doses homeopáticas. até que não é ruim. ruim é falar merda quando poderia não estar falando. hoje não vi nenhum estranho legal no ônibus. o cara que tava sentado ao meu lado cheirava a àgua oxigenada. hoje o trocador não me deu bom dia, nem boa tarde, nem boa noite. hoje eu tive que exercitar a arte de carregar um livro de 1197 páginas (java: como programar) em um ônibus lotado durante uma curva enquanto me segurava com apenas uma mão. anotação mental: nunca mais reclamar que não tenho coordenação motora o suficiente. o suficiente pra quê? sei lá. hoje eu estava ouvindo as pessoas falarem comigo enquanto pensava em outras coisas. não era porque eu queria, minha atenção simplesmente se desviava sem mais nem por quê. hoje eu chorei litros e litros e litros assistindo mary and max. hoje eu não usei letras maiúsculas. hoje eu escrevi demais, e só queria postar a imagem. isso é que dá colocar um teclado na minha frente.

não que eu esteja reclamando.


2010-09-08

Pra você ver como as coisas são

#17 — Someone from your childhood

Cara Prima da Gabi,

pra tu ter noção da gravidade da coisa, eu comecei a escrever essa carta no dia vinte de julho e só voltei a ela agora. Nesse dia, há mais de um mês, eu tinha escrito que às vezes ficava com muita raiva de ti. Hoje, tão pouco tempo depois, eu não sei mais se é bem assim. Do mesmo jeito que tenho acessos repentinos de amor, tenho de raiva, e eles vão embora tão rápido quanto chegam. 

Mas enfim.

Eu sou uma das mais garotas mais velhas "dessa geração" aqui na rua, então eu brincava com os mais novos mesmo. Tu é uns três anos mais nova do que eu, e a gente andava de bicicleta e brincava de boneca até mais ou menos os meus dez ou onze anos. Eu gostava muito de brincar contigo, a gente ficava na rua até taaaaarde - quando tarde eram sete horas da noite - e o meu pai ficava no portão pra ver se a gente não ia cair da bicicleta e se estatelar no chão, como realmente fizemos algumas vezes.

Na verdade, na mais pura verdade, acho que tu não tinha nada que me fizesse pensar "essa menina é minha amiga e eu gosto muito dela". Tu era uma das poucas crianças com quem eu podia brincar na rua, então era isso. Só isso. Nunca nutri nenhum sentimento maior, e quando eu enjoei das bonecas e das outras brincadeiras, simplesmente nos afastamos.

Então, basicamente, eu nunca esperei que tivéssemos algum laço de amizade mais profunda ou coisa do tipo, porque nunca procuramos por isso. Sendo bem direta e seca, nos unimos apenas por uma conveniência, porque nós éramos úteis uma pra outra. Foi só isso. 

Estranho, não é? É o tipo de crueldade que só as crianças têm, essa que não sei explicar direito. Não que eu tenha sido exatamente cruel contigo, mas acho cruel esse sentimento de conveniência e nada mais. Sei lá.

Hoje em dia, no entanto, eu tenho uns sentimentos complicados por ti. Ainda não te considero exatamente como uma amiga, no máximo como uma conhecida, mas sei lá... Eu te vejo como uma pessoa tão vazia, entende? Sei que isso pode ser exagerado e injusto, mas é assim que eu te vejo. E eu fico pensando se tu vai mudar um dia, mas na maior parte das vezes eu concluo que não.

E, sabe, eu não digo isso porque tu gosta de coisas extremamente duvidosas, mas sim porque as coisas que as pessoas te dizem parecem simplesmente passar direto por ti, sem deixar nenhuma coisa boa pra contar história. Quando teu irmão vinha aqui em casa, apesar de ser um pequeno destruidor dos ouvidos alheios e viver brigando contigo, ele ficava bem quietinho e prestava atenção quando eu explicava o dever de Química, assim como a Gabi. Quando tu vinha, ou quando eu ia na casa de vocês, tu achava que "aula de reforço" significava "pessoa que vem fazer o meu dever enquanto eu olho o orkut." Das milhões de vezes em que eu te disse pra não clicar em toda e qualquer propaganda idiota que saltar na tua frente na internet, quantas tu ouviu? Nenhuma, eu sempre tinha que voltar porque o computador tava todo fodido de vírus. 

Tu ficava sentada do meu lado, lamentando a minha vida. Como deve ser triste uma vida em que a pessoa tem que estudar. Como deve ser triste uma vida em que uma pessoa consegue ler mais de uma frase em inglês. Como deve ser triste uma vida em que uma pessoa se diverte lendo. Como deve ser triste uma vida de uma pessoa que não tem orkut (porque eu nunca caí na besteira de te dizer que tenho um). Como deve ser triste uma vida em que a coisa mais importante do mundo não é que a fulana cortou o cabelo igual ao teu. 

Tu ficou seriamente impressionada quando descobriu que eu tinha namorado, há séculos, porque por um acaso ele me ligou quando eu tava ajeitando o teu computador. Tu fez aquela cara de quem acha que é mentira, porque uma pessoa desse tipo certamente não teria um namorado.

Existem muitas pessoas iguais a ti nesses aspectos, mas não sei o que é, exatamente, que me faz pensar que tu não tem jeito. É uma pena.

2010-09-06

I find it kind of funny, I find it kind of sad - II

Tem gente que não entende muito o valor da amizade para pessoas como eu, que precisam das pessoas, dos amigos, e tem gente que só entende até certo ponto. Tem gente que precisa de apenas um grande amigo, outros precisam de vários, outros não precisam de nenhum. Ou pensam que não precisam. Mas enfim.

Eu tava lendo o post do Romell, que adora quebrar minhas pernas de vez em quando, e pensando nessas pequenas coisas, nesses pequenos momentos tão simples como o modo como a gente apaga uma frase ou uma mensagem comum no celular que você já apagou há anos. Essas coisas que a gente não lembra até que tenha alguma referência a ela, um cheiro, um som, um texto de outra pessoa que lembra. Essas coisinhas que parecem tão simples, mas que sempre estiveram ali, esperando que você lembrasse e sorrisse.

São momentos como esses, dias como esses, em que eu vejo como as coisas valem a pena. Como boa drama queen extremista que eu sou, passei uns dias pensando em oh deus como a vida é terrível não acredito mais no amor. Bullshit. O amor está em toda parte, e não necessariamente apenas em namoros, casamentos e coisas do tipo. Eu posso não estar mais acreditando em relacionamentos amorosos, mas aí já é outra coisa.

Nesse amor eu acredito. Esse que é o único que eu conheço que não tem como condição de existência o receber algo em troca. Esse que recebe algo em troca porque merece, e não por ameaças ou exigências. Esse que se concretiza com olhares, gestos, conversas aleatórias e lembranças compartilhadas, e não com frases feitas. Esse que faz você vê-lo em todos os lugares, que faz você se apaixonar loucamente por um momento. É nisso que eu acredito, aplicado a qualquer tipo de relação, não apenas à amizade, porque é o único que me parece realmente verdadeiro.

2010-09-03

I find it kind of funny, I find it kind of sad


Meu dia hoje (ou, melhor dizendo, ontem; já é 1h da manhã) foi meio estranho. Não estranho-ruim, foi um estranho-estranho mesmo. Nada aconteceu do jeito que eu achava que ia acontecer, em nenhum detalhe. Eu, por exemplo, estou morrendo de sono agora. Meus olhos estão fechando, e ainda é uma hora da manhã. Eu saio do computador relativamente cedo, mas demoro muito pra dormir depois disso. Nos meus piores dias de insônia, que foram nas férias de julho, eu só dormia quando já estava amanhecendo. Então, sim, é uma vitória estar com sono tão "cedo" como agora.


Crazy, I'm crazy for feeling so lonely
I'm crazy, crazy for feeling so blue
I knew you'd love me as long as you wanted
And then some day you'd leave me for somebody new





De manhã eu estava re-assistindo C.R.A.Z.Y. e pensando em como o mundo seria um lugar pior se esse filme nunca tivesse sido feito. Estava sorrindo pela nostalgia de me sentir exatamente no lugar do Zac. 

Acho - ou melhor, tenho certeza - de que esse foi um dos meus melhores "dias musicais". No ônibus, ouvindo de Patsy Cline a David Bowie (!), eu devia estar realmente parecendo muito retardada. Não vejo muita gente parecendo feliz dentro de um ônibus, especialmente se não estivesse sentada perto de um conhecido ou conversando e etc., mas eu estava absurdamente feliz por... estar sentada dentro de um ônibus ouvindo Space Oddity e possivelmente cantarolando alto demais o Can you hear me, Major Tom?


Can you hear me, Major Tom?
Can you hear me, Major Tom?
Can you hear me, Major Tom?
Can you...
Here am I floating round my tin can
Far above the moon
Planet Earth is blue, and there's nothing I can do...





Conversei com quem achava que não ia conversar, não vi quem achava que ia ver, disse o que pensava que nunca ia dizer, fiz até um programa direitinho, e olha que aula de quatro horas seguidas não é a minha praia.

Daí que eu chego em casa, entro no msn só pela força do hábito, não falo com ninguém, assisto meu filminho, não sinto aquela necessidade diária de fazer milhões de coisas ao mesmo tempo no computador. Daí que eu continuo ouvindo música, dessa vez umas dos anos oitenta, e continuo tão feliz por simplesmente estar fazendo isso.

Acho que não consegui passar exatamente o que eu queria, mas sei lá, precisava escrever. Talvez tenha a ver com o fato de que eu vou cair dormindo no teclado daqui a pouco.


And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying are the best I've ever had
I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles it's a very very
Mad world
Mad world

2010-09-01

This


(cenas do filme Get Real, do qual eu falei aqui, e mais cenas aqui e aqui. sim, eu tenho um tumblr, mas não atualizo o coitado com freqüência.)