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2012-01-05

Outubro, 1997

- Você me amou?

Ouvi a pergunta e continuei lavando as mãos normalmente, mas minha mente parou no meio do ato. Amor não era exatamente meu tópico de conversação preferido; pra falar a verdade, estava bem no topo da lista de assuntos que eu passei a vida toda evitando.

E agora isso.

Enxuguei as mãos e saí do banheiro. Ele ainda estava sentado ali, esperando a minha resposta. Tinha perguntado se eu amei, não se eu amo, e só esse detalhe me fez perceber, mais uma vez, que o tempo tinha passado. Eu não podia culpá-lo por talvez ainda me ver do jeito que eu era antes, porque eu também fazia isso. Só em alguns momentos – como esse – eu percebia que o tempo tinha passado pra ele também.

- Amei. Mas eu tenho certeza de que te disse isso na época.

- Mas talvez agora você ache que foi coisa de adolescente.

- E foi mesmo, mas isso não é de todo ruim, é? O amor aos dezesseis anos também tem lá a sua beleza.

- Não estou desmerecendo isso... Mas é que talvez você não tivesse certeza.

- Eu não tinha. Acho que essa é a graça das coisas de adolescente: a gente não tem certeza de nada, mas se entrega como se tivesse. Mas sabe o que eu nunca entendi?

- O quê?

- Como você me amou esse tempo todo. Não o porquê, que isso eu já desisti de entender e não importa tanto assim. Mas como? Às vezes eu penso até que não é possível, pra falar a verdade. Eu não sou exatamente o melhor tipo de pessoa pra se amar.

- Se você tivesse me dito isso há uns quinze anos, eu chamaria de drama. O problema é que é verdade, mas o que eu posso fazer? A gente se acostuma com tudo.

- Agora sim você tá falando direito. Toda aquela história de por que e talvez e se isso e aquilo outro não faz o seu tipo.

- Faz o seu.

- É, faz. Mas você anda estranho mesmo, perguntando coisas...

- É que às vezes eu canso, Will... Eu tento me colocar no seu lugar, juro que tento. Mas acho que cheguei numa hora em que não consigo ser mais nada além de egoísta.

Não pude evitar um sorriso.

- Se você soubesse como eu tenho vergonha de tudo que eu te fiz, que falei, que escrevi... E eu só queria isso, sabe? Esse tempo todo eu só não conseguia suportar essa... essa nobreza infeliz que você insiste em ter. Essa coisa de me querer feliz. Eu te provocava porque queria que você me desse uma rasteira, que entrasse na minha casa de noite gritando, que fizesse qualquer coisa. Mas não. Você é padrinho do meu filho, foi no meu casamento, respondeu minhas cartas, ficou no hospital quando eu tava internado. Você frequenta a porra da minha casa. Nós somos amigos. Me diz como foi que isso aconteceu? Porque eu fico olhando e não entendo, porque não faz sentido nenhum.

Ele não disse nada, é claro. Nunca dizia, porque sempre sabia que em pouco tempo eu ia me calar e me arrepender de tudo que falei. Mas eu não podia deixar de pensar que, talvez pela primeira vez em muitos anos, estávamos começando a sair do lugar.

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