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2012-05-27

Tem dias que a vida é um ato de coragem



E se o amor não for suficiente
Eu vou embora
Pra bem longe daqui

*

Não sabia definir o que era a sensação. Sabia que era física; disso tinha certeza. Como se algo – como um instrumento médico - empurrasse o céu da sua boca, mas vindo de dentro do esôfago. Sabia também que já havia sentido isso antes, só não se lembrava quando ou por quê. Seria prenúncio de coisas boas ou ruins? A lógica lhe dizia que só podia ser ruim porque, oras, era alguma coisa que lhe empurrava o céu da boca. Não existem alternativas boas para isso. Mas, por outro lado, não sentia nada de errado. A sensação em si não era ruim. Não era sequer desconfortável. Apenas estava lá, como quando você sente que está vestido, apenas isso.

Levantou-se normalmente às sete, com a vaga consciência de que o outro lado da cama não estava apenas vazio, mas também frio. Foi ao banheiro, se vestiu e tomou café como todos os outros dias. Mas estava sozinho. Tinha uma vaga consciência disso também, exatamente como a sensação na sua boca. Foi trabalhar, como todos os outros dias, só que sem se despedir de ninguém. Voltou às sete, fez um chá, assistiu televisão. Sabia que estava sozinho – sabia também que não era uma coisa ruim, ou tampouco natural, era apenas esperada. Ao abrir o guarda-roupa, tanto de manhã quanto agora, sabia que um dos lados estava vazio. Podia ver. Sabia das coisas que faltavam na casa e sabia, também, que nada sobrava – nem um bilhete, nem nada.

Ele sabia que ela iria embora. Não apenas porque ela tinha dito, mas porque era a única coisa que podia acontecer, como morrer é a única coisa que pode acontecer com certeza quando se está vivo. Ela tinha dito que iria embora se o amor não fosse suficiente, mas já sabia que não seria – ele sempre soube que, na verdade, nada seria. Não a culpava por isso, não lamentava, não choraria – às vezes chove, às vezes faz sol, e isso apenas se aceita. Sempre seria assim com ela também; de qualquer modo, se veriam de novo, sabia disso.

Enquanto isso não acontecesse, ficava aquele molde imaginário de gesso no céu da sua boca; não sufocava, não era desconfortável, não prenunciava más notícias. Apenas estava lá, quando ela não estava.

*

O continho ruim acima é um oferecimento de uma livre interpretação de Se tiver que ser na bala vai, d’As Travessuras da Menina Má (de Mario Vargas Llosa), e da minha falta de imaginação.

Para a Phanie - e para todos, por tabela - porque eu nunca sei se respondendo nos comentários cês vão ver, digo que feliz ou infelizmente o que eu tenho escrito ultimamente não vai ser publicado na internet porque tenho umas intenções serious business para a história, agora que ela finalmente deslanchou. Mas ainda posto e postarei partes sem ordem cronológica e que não necessariamente serão incluídas no original na boa e velha tag do Will e neste tumblr, que está em inglês.

2012-05-17

What have you done today to make you feel proud

Eu uso um bloquinho pra anotar coisas do trabalho. Ele já tá no fim, e numa das últimas páginas eu encontrei essa frase que eu coloquei aí no título escrita a lápis, bem no meio da folha. Lembrei que muito provavelmente ela foi escrita por um amigo em folha aleatória no ano passado, quando esse bloquinho ainda tava no começo e eu usava pra outras coisas (sim, é um bloquinho bem durável, como se vê). Fiquei feliz de encontrar isso hoje. Essa frase é, aliás, o refrão da música Proud - que é a música que toca na última cena de QAF

# O que eu tenho feito, então. Tenho escrito, muito. Acho que isso já seria o suficiente. Tenho tentado não me importar com a falta de sentido do mundo (mais abaixo). Tenho ~obtido êxito~ em me desvencilhar daquilo que não sou obrigada a suportar. Tenho feito mais projetos, que eu provavelmente nunca vou terminar mesmo, mas gosto de pensar neles mesmo assim. Tenho ido atrás de fazer freelance, porque tá fácil pra ninguém. E tenho, principalmente e apesar de tudo, tentado não pensar muito, porque sabe como é; quando a gente começa a pensar, fode tudo. Maio já tá na metade, junho tá chegando e inferno astral bate na porta. 

# Eu tava respondendo no formspring esses dias umas coisas em que eu comentava que o que me deixa injuriada mesmo é falta de coerência. Contrariando o que eu mesma disse, esse parágrafo é completamente sem sentido pra grande maioria das pessoas que vão lê-lo, mas enfim. O fato é que, feliz ou infelizmente, não sei, a única coisa que eu consigo pensar sobre minha situação atual é que eu gostaria de entender as razões para que o quadro na minha cabeça finalmente pudesse fazer sentido; mesmo que fizesse sentido só para os envolvidos, eu ficaria bem mais aliviada em ver que pelo menos havia uma lógica nisso tudo, que havia um planejamento - e, a bem da verdade, eu queria saber se ao menos bate com a minha teoria. Vez em quando minha mãe diz que eu sou um robô por querer tudo em termos de lógica e, bem, talvez eu seja mesmo. Não acho isso de todo ruim, em termos de relacionamento, porque se não fosse assim eu muito provavelmente estaria tomando um balde de sorvete em casa e escrevendo sobre as dores da vida em vez de estar me sentindo apenas meio erradinha em ver a coisa por um lado mais analítico. Essa cena do sorvete, na real, acontece bem mais frequentemente quando as coisas dão certo do que quando dão errado, atestando assim como o meu chip veio invertido. Enfim. A verdade é que não sinto nada que supostamente deveria sentir; nem raiva propriamente dita, ou dor ou desespero ou tristeza. Sinto apenas uma espécie de incômodo por não conseguir entender a origem e a resolução do problema, da mesma forma que me sinto quando não consigo entender um programa que não retorna o esperado. Eu poderia, claro, procurar por isso, mas decidi que é melhor não. Vamos praticar o desapego com as Exatas e viver um pouquinho na incerteza, talvez me cause menos problemas - e é nessas horas que eu penso que talvez eu tenha mesmo escolhido o curso certo, afinal.

2012-05-08

Some callin' me a sinner, some callin' me a winner

Como era de se esperar, só no penúltimo dia de férias (ou seja, dia 29 do mês passado) eu tomei vergonha na cara e fiz alguma coisa de útil. Mas não vou achar ruim porque foi somente a melhor coisa que eu poderia ter feito. Acontece que, na madrugada do dia 28 pro dia 29, achei que seria uma boa ideia escrever. Eu não tinha escrito muito esse ano, esses meses. Eu sabia o que dizer, mas não como - só que já faz um tempo que eu não me estresso muito com isso, porque sei que eventualmente as coisas acabam voltando pro seu devido lugar. Mas enfim. Dessa madrugada pra cá, tenho escrito tanto que de repente entendo ser possível uma pessoa se sentar e escrever um livro em dois meses. Ok, estou exagerando, mas nunca na história desse país eu escrevi tanto e finalmente de um jeito que eu consigo olhar e pensar: poxa, era isso mesmo que eu queria dizer. De repente até mesmo o que antes era falha na ~linearidade de conserta sozinho, de repente simplesmente o negócio começa a fluir direito. Não sei quanto tempo dura, ou se vou ter foco o suficiente pra terminar, mas que é lindo e mágico, isso é.